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Projeto
de Pesquisa
Moda
Contemporânea e construção interdisciplinar : pela constituição
de um campo científico para a moda
Solicitação
do auxílio "Programa de apoio a jovens pesquisadores
em centros emergentes" da FAPESP
Integrantes
da equipe:
Adilson Almeida
Alexandre Bergamo
Astrid Façanha
Maria Claudia Bonadio
Maria Gabriela S.M.C Marinho (vice-coordenadora)
Marko Synésio Alves Monteiro
Patricia
Sant'anna
Solange Wajnman (coordenadora)
INTRODUÇÃO
Vários indicadores contemporâneos nos sugerem que o campo
da moda no Brasil está em franco processo de consolidação.
Do ponto de vista dos meios de comunicação observamos sua
especial atenção para o mundo da moda. Vários espaços exclusivos
para a moda foram abertos no país : programas de televisão,
cadernos e/ou colunas fixas em importantes jornais e uma crescente
valorização das revistas especializadas em moda.
Atualmente são 11 títulos de revistas impressas direcionadas
para o segmento. Editoras observam resultados positivos em
termos de tiragem com edições que tratam o comportamento e
têm o mundo da moda em suas matérias jornalísticas. O assunto
circula nas pautas de jornais e periódicos, conquistando espaços
exclusivos nos cadernos de cultura e colunas sociais. Nos
informes econômicos a moda é tratada como "commodity".
Na sessão de ciência e tecnologia uma fibra têxtil "inteligente"chama
atenção até de quem não entende de moda.
Com o acesso à internet e a implantação da TV a cabo no Brasil
torna-se possível acompanhar o fluxo da moda internacionalmente.
Em sintonia com o que acontece no exterior, entram no ar,
os primeiros sites e revistas eletrônicas com a intenção de
reunir o crescente universo da moda brasileira, divulgando
produtos, fornecedores, profissionais da área e calendário
de eventos.
Ainda na esfera da comunicação e marketing observamos empresas
nacionais investindo tanto na divulgação, produção e promoção
de desfiles de grifes nacionais, quanto em concursos que procuram
novos talentos para alimentar o mundo da moda nacional (ver
nota 1) .
De um ponto de vista macroeconômico, os indicadores disponíveis
informam sobre a expressiva participação da moda no cenário
da economia nacional. Dados relacionados apenas ao setor vestuário
e fornecidos pela Associação Brasileira da Indústria do Vestuário
(Abravest) apontam para um volume de produção física da ordem
de 3.819.026.000 peças em 1996 (ver nota 2), movimentando
um valor de aproximadamente US$ 27,5 bilhões (ver nota 3).
Tal perfil de produção implica na existência de 1.400.000
empregos diretos, o que equivale a cerca de 7.000.000 de pessoas
com algum grau de dependência dessa atividade, apenas no setor
vestuário de produção de vestuário. Portanto não estão computados
os dados relativos a indústria têxtil em geral, bem como os
de comercialização no varejo.
Em termos de comércio exterior, a balança encontra-se equilibrada
em relação a exportação/importação com um movimento equivalente
a US $ 300 milhões em ambas as modalidades. Segundo os dados
da entidade, o mercado cresceu após a implantação do Plano
Real, havendo maior consumo de peças de baixo valor, vendidas
principalmente para as classes sociais com menor poder aquisitivo.
Podemos ressaltar, paralelamente a estes índices da mídia
e da economia, o surgimento de várias faculdades de moda no
Brasil, criadas a partir do final dos anos 80, e que têm neste
curso um uma vasta clientela. Só na cidade de São Paulo existem
quatro cursos superiores na área da moda, três dos quais plenamente
consolidados, em termos de números de matrículas e continuidade
das atividades acadêmicas. A moda como curso superior está
presente ainda no Rio de Janeiro dentro da faculdade Veiga
de Almeida, na Universidade Estadual de Londrina e na Universidade
Federal do Ceará entre outras que estão em vias de institucionalização.
Começa a surgir hoje no cenário da moda nacional um novo perfil
do profissional da moda que provém destas faculdades.
Se, como mostram todos estes índices, o campo da moda está
em plena consolidação em várias dimensões, o mesmo não ocorre
na questão da construção do campo da moda enquanto campo de
saber. A julgar pela pequena produção científica brasileira
neste setor (e inclusive das próprias faculdades de moda),
observamos uma carência teórico-metodológica centrada na especificidade
da moda contemporânea e ainda da sistematização de todos estes
novos dados que mostram o seu impacto na sociedade.
Todos estes índices nos remetem pois para uma urgência que
é a tarefa proposta pelo nosso grupo : a sistematização destes
dados e a construção da moda contemporânea brasileira como
campo de saber. Os trabalhos de Solange Wajnman e Maria Gabriela
S.M.C, ambas professoras do curso de moda da Universidade
Paulista (Unip) e membros da equipe proponente já apresentam
esforços neste sentido. A primeira desenvolve a pesquisa "Espírito
do Tempo e Moda Contemporânea : subsídios teórico/metodológicos
para a constituição de um campo de saber aplicável ao curso
de moda/Unip."A segunda desenvolve a pesquisa "Moda
: conhecimento científico, trajetória acadêmica e demanda
profissional".
A intenção agora é reunir estes esforços em uma equipe interdisciplinar
e implementar um banco de dados com ênfase na virtualidade,
maneira contemporânea de auxiliar na sistematização e constituição
da moda enquanto campo de saber. Não havendo nenhum tipo de
projeto em moda no Brasil com este caráter consideramos nossa
proposta pioneira. Trata-se da primeira sistematização de
dados organizada segundo critérios de bases interdisciplinares,
primeira sistematização da produção científica, primeiro banco
de dados virtual em moda de acesso ao público e a outros pesquisadores.
JUSTIFICATIVA
Tema marginal nos estudos acadêmicos, relegada durante muito
tempo ao mundo das frivolidades por grande parte dos intelectuais,
a moda hoje adquire características e dimensões desconhecidas
que devem ser urgentemente sistematizadas e compreendidas.
Se até poucas décadas, ainda estava restrita a determinados
estratos da população, hoje a moda insinua-se fortemente em
faixas etárias e classes sociais que antes não alcançava.
A partir deste espraiamento é o próprio caráter de frivolidade
que vemos modificar. Como diz Lipovetsky "A moda não
é mais um enfeite estético, um acessório decorativo da vida
coletiva; é sua pedra angular. A moda terminou estruturalmente
seu curso histórico, chegou ao topo do seu poder, conseguiu
remodelar a sociedade inteira à sua imagem: era periférica,
agora é hegemônica" (ver nota 4) .
A identidade entre moda e capitalismo é intrínsica e é preciso
ter isto em mente na produção dos novos estudos para a moda
na sociedade contemporânea pois o seu estatuto e conseqüentemente
a sua demarcação teórico-metodológica acompanhará este entrelaçamento.
A moda é, efetivamente, como mostra Lipovetsky, um fenômeno
específico das sociedades modernas, associado aos valores
e formas de socialização próprios deste tipo de organização
social. O que a define é o gosto pela mudança e pelo novo,
subjetividade esta própria ao capitalismo. Não se poderia,
segundo o autor, falar em moda nas sociedades tribais, antigas
e medievais. Predominaria nestas o valor atribuído à permanência,
valor este que impede a formação do gosto pela mudança, do
prestígio, do tempo presente e da legitimidade da ação humana
sobre o mundo.
A moda é a lógica do novo. O efêmero é a forma de ser da moda,
ou seja, estar eternamente em mutação. Sendo um dado socialmente
construído, não se poderia desprezar sua dimensão histórica
e social, ou seja, é preciso ter em mente a idéia de que é
a nossa sociedade quem produz esta dialética própria da mudança
que alimenta o sistema capitalista. Como mostra Sahlins esta
"(...)consiste na reprodução da sociedade num sistema
de objetos não simplesmente úteis, mas significativos, cuja
utilidade consiste em uma significação(...)mera aparência,
uma das mais importantes formas de manifestação simbólica
na civilização ocidental. Porque é através de aparências que
a civilização transforma a construção num milagre de existência:
uma coesa sociedade de estranhos" ( ver nota 5).
Aparências, imagens, signos como constitutivos do mundo da
moda merecem uma aproximação teórica metodológica compatível.
Alguns autores já trabalharam a moda como sistema de signo
mostrando assim a identidade entre capitalismo e moda.
Roland Barthes, o pioneiro neste tipo de análise considera
o vestuário como um sistema de comunicação, ampliando a análise
do "vestuário-real" para o "vestuário-escrito"em
"Sistema da Moda" (ver nota 6), indicando como a
mídia acrescenta significados à moda e como o leitor lê estes
códigos. O antropólogo Marshall Sahlins, segue a linha de
Barthes no capítulo "Notas sobre o sistema do vestuário
americano". No seu livro Cultura e razão prática, Sahlins
foca sua análise na moda enquanto produto da economia capitalista
buscando os significados produzidos pelo vestuário, produto
e apropriação das pessoas sobre o mesmo, para significar suas
relações sociais, sua aparência. Sahlins vê o vestuário como
um comunicante que se define pela oposição, pela relação com
outro, ou seja para o autor, as calças jeans se opõem as saias,
ou roupas de inverno às roupas de verão, desta forma "o
sistema do vestuário americano corresponde a um esquema muito
complexo de categorias culturais e de relações entre elas,
um verdadeiro mapa-não é exagero dizer-do universo cultural"
(ver nota 7) afirma o antropólogo.
Pierre Bourdieu também utiliza esta lógica da distinção na
análise sobre "Gosto de classe e estilo de vida".
Para o autor, a condição de classe determinaria o gosto e
o estilo de vida, logo, a aparência e a roupa, enquanto os
indivíduos provenientes de classes populares reduzem suas
necessidades urgenciais como limpeza e comodidade, as classes
médias buscam um vestuário na moda e original. O autor afirma
"às diferentes posições no espaço social correspondem
estilos de vida, sistemas de desvio diferenciais que são a
retradução simbólica de diferenças objetivamente inscritas
nas condições de existência" (ver nota 8). Bourdieu aproxima-se
de uma leitura não mais simbólica, mas sígnica quando escreve
em "As Metamorfoses do gosto" que a grife, é a marca
que, não mudando a natureza matéria, mudaria a natureza social
do objeto.
Gilda de Melo e Souza (ver nota 9) vê na moda do século XIX
um elemento de distinção entre os gêneros (o que ela chamou
de antagonismo) e ainda signo de comunicação, capaz de criar
códigos de sociabilidade parcialmente decifráveis como a modelação,
remodelação dos corpos pela roupa.
Apesar dos autores trazerem a discussão da moda próxima ao
estatuto do signo, alguns deles ainda não são conscientes
da dimensão paroxistica que a lógica da moda enquanto objeto
sígnico e emblemático vai adquirir na sociedade contemporânea.
Não puderam também prever seu impacto e conseqüências.
Mais do que hegemônica, acreditamos que a moda contemporânea
chega mesmo a ser constitutiva do próprio tecido social. A
julgar pelas características atuais, ou seja, pela maneira
que ela define a sociabilidade, pelos novos padrões éticos
e estéticos, pela nova definição do mercado empresarial ,
a moda hoje é um fenômeno.
Tal perplexidade diante deste objeto demanda não somente a
revisão mas uma atualização de caráter teórico/metodológico
da moda enquanto campo de saber. O grande impacto da moda
na vida social, seu entrelaçamento com a sociedade exigem,
sem dúvida, a institucionalização científica deste objeto.
Ela deve migrar radicalmente do campo da frivolidade para
receber um estatuto científico.
A questão da moda como lógica da mudança prevista por Sahlins
atinge hoje proporções inacreditáveis. As mudanças de usos
e significados que ela produz relaciona-se inextricavelmente
com a dinâmica do capitalismo numa sociedade globalizada.
A moda como um dos objetos de consumo em massa em oposição
aos mercados de elite mobiliza-se junto com outros produtos
numa velocidade espantosa. Como mostra Harvey "a aceleração
do tempo de giro nas produção envolve acelerações paralelas
na troca e no consumo. Sistemas aperfeiçoados de comunicação
e de fluxo de informações, associados com racionalizações
nas técnicas de distribuição (empacotamento, controle de estoques,
conteinerização, retorno do mercado etc), possibilitaram a
circulação de mercadorias no mercado a uma velocidade maior"
(ver nota 10).
Mas a moda, como a lógica do novo, confunde-se, mais do que
os outros objetos de consumo, com o próprio sistema capitalista
contemporâneo. As ligações são extremamente fortes, como podemos
entrever a partir das características do capitalismo atual
segundo Harvey. Ele descreve-as assim :
"1.Acentuamento da volatidade e efemeridade de modas,
produtos, técnicas de produção, processos de trabalho, idéias
e ideologias, valores e práticas estabelecidas.
2.Toda essa industria se especializa na aceleração do tempo
de giro por meio da produção e venda de imagens. Trata-se
de uma indústria em que reputações são feitas e perdidas da
noite para o dia, onde o grande capital fala sem rodeios e
onde há um fermento de criatividade intensa, muitas vezes
individualizada, derramado no vasto recipiente da cultura
de massa serializada e repetitiva. É ela que organiza as manias
e modas, e, assim fazendo, produz a própria efemeridade que
sempre foi fundamental para a experiên cia da modernidade.
Ela se torna um meio social de produção do sentido de horizontes
temporais em colapso mais amplo do que ela mesma, se alimenta
tão avidamente ." (ver nota 11)
Na verdade, hoje são as imagens que se tornam mercadorias.
O capitalismo agora tem preocupação predominante com a produção
de signos, imagens e sistemas de signos, e não com as próprias
mercadorias. A moda, imersa neste sistema é o campo ideal
para conter esta múltiplicação de signos e imagens. E isto
é tão impressionante que assistimos hoje, por um efeito complexo,
a ação da moda na criação de sociabilidade e definição de
éticas grupais.
Como mostra Gianni Vattimo (ver nota 12) nas últimas décadas,
culturas e subculturas de toda espécie manifestaram-se à opinião
pública. A natureza destes grupos consiste numa existência
pontual, efêmera e sucessiva, contando muitas vezes com uma
linguagem tátil, visual, não-verbal. Eles se constituem em
torno de ídolos de música, de práticas esportivas, de eventos
consumistas etc. Sua comunicação não passa necessariamente
pela palavra, são antes os ornamentos, a moda, os "gadjets"
que tomam o lugar. Assim o "look" comum do qual
a moda é, em grande parte responsável, traz emblemas comuns,
constitutivos desta lógica identificatória. Estes elementos
são, nas palavras de Vattimo "status symbols", "cartas
de membro"que permitem aos grupos reconhecerem-se.
Como vemos trabalhar a moda hoje é necessariamente trabalhar
com signos e imagens, é evidente; mas deve-se ter o cuidado
em inserí-los, paradoxalmente, num sistema simbólico. Estes
signos e imagens apesar de serem voláteis e efêmeros não meras
são representações e muito menos estruturas ocas e vazias
que desprezariam o conteúdo. Ao contrário, eles são o próprio
conteúdo, a própria realidade.
Transpostos numa discussão teórica geral de cunho epistemológico
trazemos aqui as idéias de Lash (ver nota 13) na sua contraposição
entre realismo estético versus simbolismo. No realismo estético,
o cultural se separa do social, possibilitando a representação
(um tipo de entidade representa outro). O simbolismo não operaria
esta separação. Queremos ver moda, portanto, neste novo registro
simbólico, que é o do simbolismo e não da representação. A
moda e o estilo não se restringem à esfera cultural como mera
representação de uma realidade naturalizada. Processos de
estilo estéticos vão ser parte integrante/configurante das
sociabilidades modernas.
Para Lash, a modernidade plena constitui uma quebra com uma
crença em essências fundadoras ou fundantes, metafísicas.
Ou seja, o real não é mais visto como uma esfera metafísica,
natural, determinante de outras esferas (como a estética).
A moda passa então a adquirir importância como uma esfera
auto-regulada (um campo) cuja relação com o real não é mera
superestrutura ou representação. Mas a moda adquire um estatuto
simbólico, interagindo com o real e constituindo sociabilidades
como uma esfera auto-regulada.
Ver a moda como campo então, como esfera auto-regulada seguindo
a lógica de Lash, significa romper com uma visão metafísica
de realidade e perceber o estético como constituinte da realidade.
A moda e o estilo não são mera representação ou superestrutura
determinada por uma estrutura, uma realidade metafísca, mas
contribui, enquanto uma esfera auto-regulada, que se relaciona
com outras, na constitição desta mesma realidade.
Um estudo da moda na sociedade contemporânea deve ser necesssariamente,
extrapolar o campo específico da moda enquanto tal, como passarelas,
estilistas, roupas, etc. Pois a moda coloniza e influencia
outras esferas. O estudo deve se dar nesta interação, indo
além de uma preocupação restrita com roupas.
No pós-modernismo ocorre a crítica da distinção entre significado,
significante e referente. Cresce a interferência do virtual
na vida cotidiana (TV, propaganda, computadores), e o referente
perde espaço para o significante na vivência cotidiana das
pessoas. A moda como significante se torna uma vivência compartilhada
importante no contemporâneo, onde o referente (o real) perde
espaço para significantes como a mídia. O real com o qual
as pessoas interagem cada vez mais é o referente, a imagem,
e a moda é a manifestação clara deste processo.
Somente a sistematização de um estudo interdisciplinar, cujas
linhas de pesquisa (sociológica, estética, histórica etc)
convirjam para a moda, pode compreender a questão do impacto
da moda na sociedade contemporânea. Tudo isto justifica a
constituição do grupo enquanto grupo de estudos interdisciplinares
com o objetivo de compreender, identificar e fazer prospecções
para a moda contemporânea. Ao mesmo tempo a criação de um
banco de dados com ênfase na virtualidade faz a "mimesis"(no
sentido de Walter Benjamin) metodológica do mundo das imagens
e dos signos. O banco de dados deve, pois, partindo de nossa
premissa teórico-metodológica descrita acima, "imitar"
a linguagem multimediática para melhor apreender a moda contemporânea
enquanto objeto de investigação.
OBJETIVO
O objetivo do nosso trabalho é a constituição interdisciplinar
de um campo de saber para a moda, área de tamanho impacto
e curiosamente tão pouco explorada. Para isto pretendemos
sistematizar a base bibliográfica existente, o material mediático
em moda disponível num banco de dados virtual de acesso público
e, sobretudo, trazer novas investigações teórico-metodológicas
para este novo campo de saber.
Nosso banco de dados terá então uma dupla função : servir
como suporte para as investigações do grupo que se desencadearão
a partir das fontes primárias coletadas (e que a elas voltarão
mais elaboradas) bem como servir como centro de documentação
aberto ao público.
As investigações propostas pelo grupo que se alimentam da
base de dados brutos e que inversamente o enriquecem na sua
organização obedecem à alguns eixos de pesquisa propostos
por cada integrante. Tais eixos convergem individualmente
para o objetivo comum ao grupo que é a necessidade imperiosa
de compreender o impacto e o alcance da moda na sociedade
contemporânea em diversos setores. Esta compreensão supõe
uma base prospectiva seja em termos da busca de novos recursos
teóricos que surjam da interface da moda com outras áreas
(comunicação, sociologia, história, política de ensino no
Brasil) ou metodológicos (banco de dados em moda e ciências
da informação).
Segue-se uma síntese dos objetivos de cada linha de pesquisa
:
1)
Linha de pesquisa : A Institucionalização Acadêmica da Moda
Responsável : Maria Gabriela S.M.C Marinho
Esta linha de pesquisa pretende sistematizar as linhas gerais
de caráter sócio-histórico que possibilitam compreender a
emergência de uma "institucionalização simultânea"dos
cursos de moda. Considera que essa emergência é resultado
do amadurecimento de três setores econômicos distintos porém
convergentes. Em primeiro lugar, aponta a trajetória da indústria
têxtil e de confecções como determinante para criação de uma
base material sobre a qual a indústria da moda poderia se
implantar integralmente.
Tão importante quanto a existência dessa base material, foi
a implantação da chamada "indústria cultural"no
Brasil. Ela provocou, por sua vez, a instalação de um "mercado
de bens simbólicos"que reorientou o gosto e os padrões
de consumo da sociedade brasileira com a mediação do mercado
publicitário e a participação da indústria têxtil, de confecções
e de cosméticos, entre outros setores econômicos.
Esta linha de pesquisa considera finalmente como hipótese
a idéia de que o "arremate"final deu-se através
da dinâmica imposta pelo ensino superior privado que, entre
os anos 60 e 80, passou a responder pelo aumento de 2/3 das
vagas existentes n sistema brasileiro de educação universitária.
A lógica inerente ao setor, que atua agressivamente em busca
de sua clientela, e em sintonia com o mercado de trabalho,
explica, pelo menos em parte, porque os cursos de moda, sem
qualquer tradição acadêmica no país, surgiram,exatamente,
no âmbito das instituições privadas e num processo de "institucionalização
simultânea".
2) Linha de pesquisa O Fluxo de Informação na Moda
Responsável: Astrid Sampaio Façanha
Esta linha de pesquisa analisa a moda sob o prisma do seu
sistema virtual : enquanto transporte, sempre em mutação,
em devir e conforme os quadros de referência em que circula.
Ela tem como objetivo estabelecer as bases de um Centro de
Cálculo. Este Centro de Cálculo além de contribuir para o
aprimoramento conceitual da implantação do banco de dados
do nosso Centro Emergente fornecerá uma contribuição material
com dados da industria da moda.
Neste sentido esta linha de pesquisa que acompanha a pesquisa
de mestrado em Ciência da Informação tem como objetivos:
a) situar a moda nos quadros de referência da realidade virtual
a partir da concepção de Pierre Levy, contrapondo-a à de Jean
Baudrillard e desdobrando-a em seus domínios teóricos (análise
formista de Maffesoli e essência da moda de Simmel), da experiência
humana (visão dos que fazem a moda acontecer) e de sua construção
(montagem de Centros de Cálculo para transporte de informação).
b) ilustrar a idéia de Centro de Cálculo, a que se adiciona
a concepção de Michel Menou sobre a informação como commodity,
a partir do estudo do Centro de Tecnologia da Indústria Química
e Têxtil (SENAI/CETIQT). O CETIQT é apresentado como laboratório,
suportado por vasta rede de informação/conhecimento, onde
é possível acompanhar o trabalho de tradução da informação
nos domínios da pesquisa, da indústria e do comércio, contemplando,
especificamente, as seguintes manifestações do processo informacional:
na pesquisa que define a cartela de cores, as misturas e tramas
de filamentos para composição de tecidos e os cortes de modelagem
e, nos efeitos que tudo isso produz ao ser organizado, por
múltiplos intermediários, para três importantes eventos de
moda (Morumbi Fashion, Brazil, Phytoervas Fashion e FENIT),
para o laboratório de criação de moda de um estilista brasileiro
e, finalmente, as repercussões dessas informações nos meios
de comunicação de massa.
c) Contribuir para a sistematização da base material sobre
a qual a indústria da moda se articula.
d) Articular e estabelecer em detalhes as bases conceituais
e práticas do banco de dados do grupo.
3) Linha de pesquisa Moda, Consumo e Identidade
Esta linha compreende os projetos de MarkoMonteiro na área
da Antropologia, de Maria Claudia Bonadio na área de História
Social e de Alexandre Bérgamo na área de Sociologia.
Um dos objetivos desta linha é estudar a relação entre moda,
estilo, imagem pública e relações de gênero na sociedade brasileira
em dois momentosdistintos: a segunda e a terceira década do
século XX e acontemporaneidade. Observando nos dois momentos,
a relevância da moda na (re)construção da masculinidade e
da feminilidade, e a utilização do "gênero" como
parte constitutiva da linguagem do vestuário e da aparência,
a linha de pesquisa pretende destacar a importância do gênero
e da moda como articuladores de sociabilidades específicas
contemporaneamente e através da história.
Uma outra preocupação desta linha de pesquisa é compreender
a moda através dos mecanismos de transitoriedade e a renovação
dos símbolos visuais dentro do âmbito das relações sociais.
Ora, a moda enquanto fenômeno social não é aquilo que se está
usando em um determinado momento e em outro não, mas sim a
renovação constante do vestuário em si mesma. A moda é um
fenômeno de renovação constante, rotinizada e ritualizada
do vestuário. Esta característica é inerente à sociedade em
que vivemos e se acentua sobremaneira numa época de economia
globalizada e da velocidade das informações proporcionada
pela novas tecnologias. Tal questão básica poderia se resumir
assim : que experiência social é esta capaz de tornar a si
própria transitória, e igualmente capaz de subverter a sua
própria transitoriedade, pois pode estar no passado, no presente
e no futuro ao mesmo tempo?
Essa questão deve ser respondida através da análise sociológica
das complexas relações que interligam os diversos agentes
ligados à moda. De um lado tem-se o mercado consumidor que
estabelece uma demanda simbólica de um certo tipo, atendida
pelos pelos produtores de moda. Do outro lado, o realidade
destes produtores de moda e as relações que estabelecem tanto
com o consumidor quanto entre si na concorrência pelo poder
de produzir bens que atendam a essa demanda de consumo.
4)Linha de pesquisa Moda, Mídia e Novas Tecnologias.
Esta linha de pesquisa subdivide-se em três sub-áreas
-A Moda na TV por Assinatura e os Novos Modelos de Representação
Juvenil
Responsável : Joelma Leão
Análise da dimensão social da moda a partir da nova estrutura
tecnológica que a televisão por assinatura possibilita. Tem-se
como hipótese a idéia de que a interferência destes novos
meios à rotina das relações sociais acarreta ou é simultânea
à um novo código de moda. Código excepcionalmente novo que
traduz desejos e carências de um mix de culturas. Pode-se,
por exemplo, perceber a força que o "streetwear"
vem exercendo, o que mostra uma dinâmica entre esta nova forma
de televisão e as microculturas ou subculturas que estão nascendo.
A intenção é, portanto entender os processos de disseminação
das tendências sazonais de moda no seu entrelaçamento com
as "formulas"(programas que situam o universo da
moda) constitutivas de tal processo.
-A Construção Visual da Moda na Imprensa e Ressemantização
Cultural
Responsável : Patrícia Sant`Anna
O mundo da moda (nacional e internacional) está recebendo
especial atenção dos meios de comunicação nacionais, principalmente
a partir do começo da década de 1990. Vários espaços exclusivos
para a moda foram abertos no país: programas de televisão,
cadernos e/ou colunas fixas em importantes jornais e uma crescente
valorização das revistas especializadas em moda. Esta "invasão"de
informações imagéticas no mercado brasileiro não somente enriquece
mas leva ao paroxismo a capacidade da moda em produzir objetos
simbólicos e interpretar significados culturais. Uma análise
das informações imagéticas poderá detectar a especificidade
da construção da imagem da brasileira. Esta análise torna-se
eficaz já que tem como perspectiva teórico-metodológica considerar
o sentido de atualização da imprensa feminina. Sendo versões
nacionais de matrizes internacionais o seu conteúdo provém
das tendências internacionais que são ressemantizadas para
os padrões nacionais.
-Moda, Tecnologias Contemporâneas e Novas Formas Cognitivas
Responsável : Solange Wajnman
Análise de formas estéticas no sentido de contribuir para
a identificação das novas categorias epistemológicas e cognitivas.
A linguagem das novas práticas estético-tecnológicas ( vídeo-arte,
imagem de síntese, internet) estariam se constituindo como
a matriz e o paradigma das outras artes. A moda, enquanto
prática contemporânea de produção coletiva e imersa dentro
de um mesmo "espírito do tempo"contemporâneo pode
demonstrar esta hipótese.
Algumas categorias podem ser construídas a partir das idéias
que partem da representação à apresentação; do realismo conceitual,
da simulação, do abstrato sensível, da interatividade da mutabilidade
de sentidos. Estas categorias são por sua vez concretizadas
para o campo da moda nas seguintes tendências:
tendência à imaterialidade (o jogo das transparências, dos
tecidos leves, sedas, voils soltos, os brilhos, o lurex, strass,
espelhos, tecidos sintéticos com cores fluorescentes, naylon,
plástico), tendência à simulação e interatividade, tendência
à superioridade do conceito de forma e modelagem da vestimenta
sobre os enfeites e detalhes,tendência do desconstrutivismo
(a questão da moda das ruas, do "downtown style",
do estilo composto por roupas sobrepostas),tendência ao hibridismo.dos
tempos e espaços (moda retrô, o pastiche),.da mescla entre
o feminino e o masculino, o campo e a cidade.
Apresentadas as linhas de pesquisa faz-se necessário esclarecer
que o objetivo final da equipe é construir uma rede de conexões
causais (no sentido weberiano) para a questão da moda hoje,
rede esta constituída a partir de uma construção interdisciplinar
que se refletiria também na sistematização do banco de dados
virtual.
MÉTODO DE TRABALHO
A busca de uma taxonomia e das regras de acesso aos dados
mais aperfeiçoadas estarão sendo criadas pelos responsáveis
das linhas de pesquisa ao mesmo tempo em que eles desenvolvem
suas investigações.
Os integrantes do grupo estarão desenvolvendo os seguintes
tipos de pesquisa :
a)pesquisa com fontes históricas para compreender a construção
dos gêneros.
b)pesquisa iconológica em imprensa escrita para compreender
a descrição imagética da moda e identidade cultural.
c)pesquisa junto às novas tecnologias.para compreender a estruturação
da imagem sintética e suas analogias com a nova representação
contemporânea da moda, para compreender o seu impacto junto
aos jovens e para acompanhar e registrar o fluxo de informações
entre vários setores da moda
d)pesquisa de campo.para acompanhar a construção do processo
mediático da moda, a relação entre produtores e consumidores
e para acompanhar as políticas de institucionalização acadêmica
da moda.
Os resultados destas pesquisas serão transformados em recursos
visuais e auditivos: fotos, vídeos, depoimentos e textos elaborados
a partir destes resultados. Este material se integrará ao
banco de dados, aprimorado, neste momento final, no seu sistema
taxonômico e nos critérios de acesso aos dados.
Paralelamente ao trabalho com o banco dados os reponsáveis
das linhas de pesquisa estarão publicando os artigos referentes
aos seus resultados. Prevemos também a realização de três
seminários onde a equipe abrirá um debate com os estudiosos
e a comunidade científica interessada.
BIBLIOGRAFIA
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dezenove. 1ª reimp. S. P.: Cia. das Letras, 1987, 256p. ilus.
(1)
São empresas como a Phitoervas-empresa de produtos de beleza-que
promovem o já reconhecido e respeitado Phitoervas Fashion.
Trata-se de um desfile executado em São Paulo com estilistas
novos com total liberdade de criação para montar uma coleção
para uma temporada determinada. O Morumbi Shopping organiza
o Morumbi Fashion, evento onde as etiquetas paulistas mostram
suas coleções a cada temporada. A Pierre Sminorf- destilaria
de bebidas alcólicas -executa o Sminorff, etapa nacional de
um concurso de talentos e tendências (que é patrocinado por
esta mesma empresa). E, finalizando os exemplos, a empresa
de cosméticos Helena Rubstein que promove o Estilo Leslie/Helena
Rubstein, voltado para a moda carioca.
(2) Trata-se, segundo a Abravest, dos indicadores mais atualizados
disponíveis na entidade, que utiliza serviços de terceiros
para sua coleta e sistematização.
(3) Os dados excluem cama, mesa e banho e aprodução de meias.
(4) Lipovetsky, Gilles; O império do efêmero: a moda e seu
destino nas sociedades modernas. São Paulo, Companhia das
Letras, 1989, p.12.
(5) Sahlins, M. Cultura e razão prática. Rio de Janeiro: Zahar,
1979, p.224.
(6) Barthes, Roland. Sistema da moda. São Paulo, Cia. Ed.
Nac./Ed. da Universidade de São Paulo, 1979.
(7) Sahlins, M. id, ibid, p199
(8) Bourdieu, Pierre. A distinção. São Paulo, Difel, s/data
, p.82
(9) SOUZA, Gilda de Melo e. O espírito das roupas: a moda
no século dezenove. 1ª reimp. São Paulo, Cia. das Letras,
1987.
(10) Harvey, David. A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre
as origens da mudança cultural. São Paulo, Loyola, 1993, p.227.
(11) Harvey, David. id.ibid. p.262
(12) Vattimo, Gianni. La société transparente. Paris: Desciée
de Brouwer, 1990, p.18.
(13) Lash, Scott. Sociologie of Postmodernism. London, Routledge,
1990.
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