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LIPOVETSKY,
Gilles. Império do efêmero: a moda e seu destino nas sociedades
modernas. Tradução por Maria Lúcia Machado. São Paulo:
Companhia das Letras, 1989.
Texto publicado
por Adilson José de Almeida em Anais
do Museu Paulista; história e cultura material.
São Paulo, v.3, p.265-73, 1995
Professor de sociologia
e seu trabalho, entre os livros traduzidos no Brasil nos últimos
anos, é seguramente aquele no qual encontramos formulados
e encaminhados com maior precisão e abrangência os principais
problemas referentes aos estudos sobre moda. De maneira mais
específica sua pesquisa desenvolve-se como uma história da
moda, estabelecendo recortes precisos (a partir de critérios
claramente expostos) afim de que possamos, em meio à enorme
massa de informações, apreender as linhas gerais de seu desenvolvimento
e as razões para as mudanças verificadas. Afasta-se, assim,
da crônica linear e cronológica de eventos que caracteriza
muitas obras neste campo e procura uma salutar renovação das
análises tradicionalmente oferecidas; ao mesmo tempo, porém,
desenvolve uma concepção de história que dissocia práticas
e representações e traz muitas desvantagens para a compreensão
do fenônemo. Por isso mesmo é de nosso interesse, após entendermos
seus principais argumentos, nos determos nos impasses criados
por sua abordagem.
Uma das principais questões
formuladas pelo A. refere-se à centralidade da moda nas sociedades
contemporâneas, o que a constitui como força efetiva na produção
e reprodução social. A moda que surgiu como um fenômemo muito
localizado na modernidade - nas cortes européias e por muito
tempo restrito aos estratos sociais dominantes - experimentou
um paulatino desenvolvimento até tornar-se um fenônemo onipresente
e força hegemônica na atualidade; e se, até poucas décadas,
ainda estava restrita a determinados estratos da população,
hoje insinua-se fortemente em faixas etárias e classes sociais
que antes não alcançava. Sua intensa difusão constituiria
um processo fundamental das sociedades pós-industriais, fato
que motiva uma dura crítica do A. à intelectualidade, em razão
da marginalidade do tema nos estudos acadêmicos.
Esta reduzida exploração
do assunto teria conduzido a um enfoque empobrecedor para
compreensão das variações sucessivas que caracterizam a moda
ao vinculá-las exclusivamente às estratégias de distinção
social quando, na verdade, teriam surgido associadas a dois
valores fundamentais da modernidade: a importância do novo
e a expressão da individualidade. Reclama-se, portanto, a
elaboração de uma nova abordagem para compreensão da história
da moda e interessa-nos particularmente uma idéia a ela relacionada:
"A moda não é mais um enfeite estético, um acessório
decorativo da vida coletiva; é sua pedra angular. A moda terminou
estruturalmente seu curso histórico, chegou ao topo do seu
poder, conseguiu remodelar a sociedade inteira à sua imagem:
era periférica, agora é hegemônica" (p.12).
Esta força estruturante
da moda na organização social corresponde à realização de
sua própria história, o que supõe a seguinte concepção: elementos
que estavam potencialmente contidos nela desde seu surgimento
realizaram-se plenamente na atualidade; o valor do novo e
a expressão da individualidade, elementos que caracterizariam
a moda hoje em dia, estavam implicados na prática da moda
desde seu aparecimento no Ocidente. O problema das teorias
hoje predominantes sobre o tema, que concebem as estratégias
de distinção como o "motor da moda", deve então
ser colocado nos termos de uma assimilação da origem da moda
a uma de suas funções sociais. A origem de um fenônemo recolheria
no seu interior as forças que: se manifestaram num tempo e
num espaço geográfico determinados; impulsionaram seu aparecimento;
definem sua natureza ainda que não tenham historicamente se
efetivado. A função social consiste naqueles usos historicamente
realizados (da moda) mas que não constituem necessariamente
aquelas forças. O fato de a moda servir à distinção social
não define sua verdadeira natureza; esta só pode ser apreendida
quando relacionamos sua origem histórica à formação dos valores
próprios das sociedades modernas.
Esta mudança de enfoque
impor-se-ia também em função das dimensões políticas que ela
implica. A consciência renovada que podemos desenvolver da
vinculação estrutural da moda àqueles dois valores da modernidade
seria importante para compreendermos o significado que, de
forma paradoxal, o caráter fugidio da moda assumiria na consolidação
dos regimes democráticos: quanto mais avança o efêmero mais
impulso para a subjetividade autônoma, quanto mais impõe-se
a frivolidade mais desenvolve-se uma consciência crítica e
tolerante. Na verdade, o autor formula a tese do potencial
democrático da moda: ela pode, ao efetivar-se historicamente,
à medida que se desembaraça de outras tendências que contem
ou dela se apropriaram, realizar os princípios políticos das
sociedades liberais e a plena expressão da individualidade
humana (não por determinação de uma necessidade histórica
mas pela ação consciente dos sujeitos envolvidos).
O A. tem a clara intenção
de renovar os estudos sobre moda, mas como podemos constatar
sentiu-se obrigado a reviver a concepção histórica da "astúcia
da razão" (p.17): a realização histórica da razão através
de caminhos, dispositivos, estratégias que aparentemente a
contradizem. Este revigoramento de uma concepção histórica
de fundo idealista (hegeliano) simplesmente não se aproveita
dos recentes desenvolvimentos da pesquisa histórica e prejudica
a boa idéia de um questionamento da vinculação exclusiva do
estudo da moda às questões de estratificação social. O principal
problema que introduz à sua abordagem, como veremos, é uma
dicotomia entre história social e história cultural, no entanto,
devemos antes disso registrar alguns passos adiante que ela
possibilita.
Afirma-se desde a introdução
do livro a historicidade da moda, fenônemo específico das
sociedades modernas, associado aos valores e formas de socialização
próprios deste tipo de organização social. Ao procurar, portanto,
elaborar uma abordagem histórica do fenônemo, retira o tema
do âmbito das teorias que trabalham com a noção de "natureza
humana": a moda não é um fenônemo universal verificável,
com maior ou menor intensidade, em toda e qualquer sociedade.
Neste aspecto em particular, talvez resida a maior contribuição
deste estudo. O A. mostra-nos, inicialmente, como não podemos
falar em moda nas sociedades tribais, antigas e medievais.
De uma maneira variada predomina nestas o valor atribuído
à permanência, fato capital que impede a formação do gosto
pela mudança, do prestígio do tempo presente e da legitimidade
da ação humana sobre o mundo. Assim, de maneira apenas indicativa,
o autor nos lembra que a indumentária e seus acessórios, os
penteados, as pinturas nas sociedades tribais experimentam
mudanças, mas são variações que não escapam às regras fixadas
pela tradição; que a toga-túnica egípcia, o peplo grego (traje
feminino), a toga e a túnica romanas, o quimono japonês são
alguns exemplos de vestuários que permanecem séculos sem conhecerem
alterações significativas. Quando ocorrem mudanças na indumentária
nestas sociedades, elas decorrem de influências externas -
oriundas do contato com outras sociedades, sobretudo nos processos
de conquista - ou se verificam em situações muito específicas
e localizadas, como a imitação do corte de cabelo e barba
de Alexandre pelos gregos ou a variação nos tipos de penteado
feminino no Império Romano. Influências episódicas que impulsionam
mudanças que tendem a estabilizar-se.
Esta concepção da moda
permite sua caracterização mais precisa. Este fenônemo não
consiste apenas nas variações ocasionais que podemos verificar,
aqui e ali, nas diversas sociedades; a moda como tal exige
a constância das variações que têm uma lógica própria ao seu
desenvolvimento e que não se deve a influxos exteriores a
ela como a imposição de modelos estrangeiros. Acrescente-se
também uma precaução metodológica pouco observada na maioria
das obras sobre moda: a distinção entre moda e vestuário.
Dois usos diferenciados do termo são autorizados no senso
comum: um ressalta o caráter efêmero das variações e sua ocorrência
nas mais diversas atividades - criação musical, reflexão intelectual,
no vestir-se, práticas esportivas, etc. - ou tipos de objetos
- vestuário e indumentária, interiores de residência, etc.;
outro remete exclusivamente ao vestuário, identificação que
permite falar, sem maiores preocupações, em moda na Grécia,
no Império Romano, nas sociedades da Antigüidade Oriental
e outras.
Esta identificação entre
moda e roupa, enquanto uso social, deve suscitar muito mais
nossa análise do que nossa rejeição mas, no âmbito da pesquisa,
torna-se imprecisão conceitual que impede uma correta formulação
dos problemas. Quanto aos estudos sobres vestuário, pouca
atenção se dá às roupas que se tornam "fora de moda"
mas continuam tendo outros usos e às roupas que praticamente
desconhecem o fenônemo: as roupas profissionais, eclesiásticas,
os uniformes militares. Sobre estas quase não há interesse
dos estudiosos e poucas obras pode-se encontrar a respeito,
lacuna séria que prejudica uma compreensão mais abrangente
e aprofundada das funções do vestuário. Por outro lado, o
A. chama a atenção para o fato que as roupas são o "domínio
arquetípico" da moda e constituem um meio estratégico
para a compreensão deste sistema baseado em variações contínuas;
esta observação ao mesmo tempo ressalta uma necessidade para
a pesquisa, posto que seria de interesse a análise da moda
em outros sistemas de objetos que não o vestuário e em outras
atividades sociais nas quais se verifica o fenônemo.
No entanto, estes avanços
tópicos que sua argumentação promove são obtidos a partir
de uma determinada concepção histórica que compromete seriamente
a compreensão das funções da moda na organização das sociedades
modernas. Podemos acompanhar este problema nas análises do
A. sobre a moda durante a Época Clássica e sobre o que denomina
moda dos cem anos, um modelo de industrialização da moda marcado
pela existência de dois pólos, a confecção industrial e a
alta costura e que perdurou de meados do século XIX a meados
do século XX. Diante dos reducionismos teóricos que ele julga
serem a tônica neste campo, qual o tipo de abordagem que se
impõe ao pesquisador?
"Ao contrário
do imperialismo dos esquemas da luta simbólica das classes,
mostramos que, na história moderna da moda, foram os valores
e as significações culturais dignificando em particular o
Novo e a expressão da individualidade humana, que tornaram
possíveis o nascimento e o estabelecimento do sistema da moda
na Idade Média tardia; foram eles que contribuíram para desenhar,
de maneira insuspeitada, as grandes etapas de seu caminho
histórico" (p.11).
Mais adiante reafirma-se:
"É porque o papel
da representação do indivíduo não foi analisado em seu justo
valor que as explicações da mudança de moda permanecem tão
pouco convicentes... Para que aparecesse o impulso das frivolidades,
foi preciso uma revolução na representação das pessoas e no
sentimento de si, modificando brutalmente as mentalidades
e valores tradicionais" (p.59).
Justa crítica à referência
exclusivista do conflito de classes mas que somente articula
um outro reducionismo na análise. Problematizada nos termos
propostos, a moda não deixa de estar referida à estratificação
social mas teria um significado mais profundo na medida em
que não funcionaria apenas como mecanismo de diferenciação
e hierarquização de classes e grupos sociais; ela seria expressão
dos valores que conformariam a cultura moderna. Estes valores
são, especificamente, as noções de novo e individualidade.
Portanto, é por referência à história cultural - identificada
à história dos valores e, de maneira mais ampla, das representações
- que podemos apreender o sentido fundamental do nascimento
histórico da moda e seu posterior desenvolvimento.
A modernidade se definiria,
antes de tudo, como uma ruptura na ordem dos valores. O A.,
examinando o modelo teórico das classes sociais, reconhece
a ascensão social dos estratos burgueses desde o século XIV
e a preocupação da aristocracia em resguardar sua posição
hierárquica e criar meios que assegurassem sua distinção social.
Esta mobilidade que verificamos nas relações sociais explicaria,
em parte, as contínuas variações que se instalam nos vestuários
de cada pólo da oposição: inovação aristocrática, imitação
burguesa, difusão da novidade, outra inovação aristocrática
e assim sucessivamente. Neste esquema só ocorre inovação porque
a anterior deixou de sê-lo e, portanto, deixou de funcionar
como elemento diferenciador. No entanto, a difusão que apagaria
as marcas distintivas não seria suficiente para explicar muitas
variações ocorridas: há, com frequência, inovações que surgem
antes mesmo que outras tenham se difundido em meios sociais
diferenciados. Constataríamos, assim, que a inovação não é
concebida unicamente para distinguir e deveríamos relacioná-la,
segundo o autor, a um valor específico da modernidade: o ideal
e o gosto das novidades, "próprios das sociedades que
se desprendem do prestígio do passado" (p.54). Existiriam,
portanto, variações sem significação nas relações sociais.
Outro modelo explicativo
põe em evidência os conflitos de prestígio entre os estratos
dominantes das classes sociais e teríamos assim concorrência
entre nobreza de toga e nobreza de espada, entre nobreza de
corte e nobreza provincial, que representaria outra chave
para compreensão dos movimentos da moda. No entanto, pode-se
observar: são as pessoas que ocupam o topo das relações hierárquicas
- reis, rainhas, princesas, princípes, grandes senhores -
aquelas que produzem as variações e são imitadas, justamente
estas que não teriam preocupação em distinguir-se, uma vez
que estariam fora das questões de ascensão social. O problema
que devemos compreender aqui são os motivos que levariam a
alta hierarquia a afastar-se das referências e finalidades
anteriores. Finalmente, deveríamos considerar a falta de explicação,
a partir do esquema da classe social, para o fato de que a
busca de uma expressão pessoal caracterize fundamentalmente
a moda - se se trata apenas de ostentar as marcas distintivas
do grupo ou classe social como entender a intensa preocupação
com a demarcação de uma individualidade?
A conclusão que devemos
tirar destes argumentos seria a seguinte: o conflito entre
classes sociais, ou de uma maneira mais ampla, a referência
da moda às relações sociais historicamente estabelecidas,
pode explicar o movimento de difusão de uma novidade mas não
a expressão da individualidade, nem a origem da inovação e
o afastamento da tradição que ela implica.
Poderíamos, talvez, acompanhar
topicamente os argumentos do A. e avaliar, por exemplo, a
proposta não inteiramente explicitada, segunda a qual devemos
considerar as motivações pessoais de um rei ou grande senhor
para produzir uma inovação e tomá-las como explicação da origem
da variação. No entanto, a primeira observação a fazer ao
enfoque proposto é a separação drástica, que está na base
de sua formulação, entre práticas e representações na explicação
de fenônemos sociais. O problema básico surge quando associamos,
na forma proposta, o surgimento de uma prática como a moda
a valores como os apontados: claro está que apenas deslocamos
a questão do surgimento histórico da moda para o nascimento
histórico destes valores. A renovação dos estudos sobre moda
é uma necessidade, no entanto, os modelos propostos devem
trazer um equacionamento mais fundamentado das relações entre
práticas e representações (e nem desconsiderar a bibliografia
existente sobre o tema). Quando nos referimos às diversas
mudanças ocorridas na Europa durante os séculos XIV e XV,
certamente não devemos minimizar as transformações nas relações
sociais marcadas por uma maior mobilidade social. A moda e
os valores a ela associados não podem ser entendidos fora
dos quadros de relações sociais de um novo tipo que então
ganha impulso.
Todo o problema retorna
quando o A. analisa a moda dos cem anos vinculando as questões
referentes à industrialização e aos inícios das sociedades
de consumo de massa exclusivamente a tranformações na ordem
dos valores. Segundo argumenta, se a roupa de moda torna-se
um produto no mercado capitalista e, portanto, enquanto mercadoria
tende à uniformização e à homogeneização, contrariando sua
própria economia interna baseada na atividade de criação,
podemos observar que também ocorre uma democratização da moda
em função do enfraquecimento de determinados valores tradicionais
e ascensão de valores democráticos.
De fato, observa-se na
Europa a partir da segunda metade do século XIX e intensificando-se
no século XX, a crescente difusão social da moda em vestuário,
seu uso por outras camadas sociais antes sem acesso a este
tipo de roupa. Mas este fenônemo deve ser explicado, segundo
o A., em função das três seguintes mudanças. A primeira seria
constituída pelas transformções na própria alta costura. Uma
simplificação do vestuário feminino de moda a partir dos anos
20, com Chanel e Patou, tornou os modelos mais facilmente
imitáveis, modificação fundamental que diria respeito principalmente
ao que denomina amortecimento do princípio aristocrático do
conspicuous consumption e que seria concomitante à ascensão
do imaginário democrático da igualdade de condições. O luxo
ostensivo concebido para marcar as distâncias sociais foi
atenuado: os signos de distinção social não desapareceram
mas foram reabsorvidos num luxo mais discreto (do tecido,
do corte, da griffe).
O surgimento e a difusão
das práticas esportivas seriam uma segunda mudança, um fator
estético pois seu efeito consistiu sobretudo em uma significativa
transformação na aparência das pessoas. Surgiu uma nova estética
do corpo feminino - a mulher esguia, esbelta e em movimento,
enfim a mulher moderna - tornando importante a exibição do
corpo. É neste ponto, especificamente, que no texto é pressentida
a autonomia pessoal - afirma-se uma relação dos novos trajes
com o universo individualista-democrático mas não se desenvolve
o assunto - na expressão da individualidade através do corpo
desnudado no qual desfizeram-se os artifícios da indumentária
em favor do "corpo natural".
Uma terceira mudança no
vestuário de moda é também remetida a mudanças nos valores
estéticos e concorreria para a simplificação do traje: a influência
do despojamento estilístico presente na arte moderna. É amplamente
conhecida a utilização de elementos de artes plásticas no
trabalho de alguns famosos costureiros e aqui o A. pode apontar
certos paralelos entre traços formais de roupas da moda e
obras artísticas (linhas retas, planos nítidos e angulares,
contornos geométricos).
Mas é neste último item
que os novos valores implicados na moda podem ser melhor analisados
pois o paralelismo entre moda e arte moderna vai muito além
da existência de traços formais uma vez que o costureiro atingiu
um novo status social: sua posição subalterna em relação ao
usuário deu lugar ao costureiro como artista moderno, um criador.
Existiam já, desde o século XVIII, vendedores e vendedoras
de modas mas cuja autonomia para inovação era bem restrita
em relação àquela da qual disporia Charles-Frédéric Worth,
fundador da primeira casa de alta costura, realizando-se apenas
sobre os ornamentos e acessórios da toalete e nunca sobre
o próprio traje.
Costureiro e artista não
se aproximariam apenas no exercício de uma atividade criativa
mas também quanto à sua nova forma de atuação e organização:
a vanguarda. Explicaríamos porque é possível constatar um
intercâmbio pessoal e profissional constante entre famosos
costureiros e conhecidos artistas plásticos e porque encontramos
na moda não só as mesmas lutas de tendências mas também a
mesma lógica da revolução (é o ápice da idéia da inovação)
e a mesma valorização do Novo, presentes no trabalho artístico.
Esta promoção social das
pessoas que trabalham com moda, anterior à constituição das
sociedades democráticas, está ligada a transformações na representação
social da moda. Lipovetsky observa como à exclusividade de
uma literatura crítico-moralista que só descrevia o vestuário
em função de certos valores afirmados ou fustigados substituiu-se
a hegemonia de um novo meio especializado em roupas de moda,
as revistas ilustradas e uma nova dignidade da moda na literatura
(Balzac, Baudelaire, Mallarmé, Proust). O que significaria
este processo? Segundo o A., trata-se da ascensão de duas
paixões democráticas: o superinvestimento em questões relacionadas
ao parecer e um interesse sem precedentes pelas novidades,
ligadas a um fenônemo de maior alcance, a valorização das
frivolidades - comer, fumar e outros assuntos considerados
menores.
A reivindicação do status
de arte para o ofício da moda constituiu também um esforço
corporativista que fora antes desenvolvido por pintores, escultores
e arquitetos mas no caso da moda ela fez-se segundo valores
das sociedades democráticas: o ideal igualitário que se manifesta
nas tentativas de afirmar para as roupas de moda a mesma qualidade
nobre das obras da literatura e das artes plásticas e reivindicar
o mesmo tratamento de que os artistas desfrutavam entre os
nobres. Finalmente, uma nova moral individualista-hedonista,
hegemônica nas sociedades modernas explicar-nos-ia para além
das reivindicações corporativistas as transformações na moda:
ela teria feito recuar os valores heróicos da nobreza e as
restrições religiosas cristãs relativas às frivolidades mundanas.
O A., no entanto, poderia ter formulado com mais acerto seus
problemas. Ele não se furtou à análise de aspectos das transformações
sociais envolvidas nestes problemas mas foi obrigado a arrolá-los
como condições que explicam tenuamente a origem da moda e
não forças que impulsionaram efetivamente seu aparecimento
histórico. No caso da moda, nos séculos XIV e XV ele preocupou-se
com a reflexão sobre um terceiro valor associado a ela e que
a caracteriza de forma mais completa como expressão da cultura
moderna - a nova importância do mundo "sensível":
a moda em vestuário implica lidarmos com a materialidade da
roupa, o que expressa uma ruptura fundamental que impulsiona
a modernidade: a legitimidade da ação do homem sobre o mundo
terrestre.
O problema começa a ser
formulado na crítica e na retomada que se faz dos temas de
Veblen. Sua obra representaria um terceiro e mais acabado
modelo de explicação em termos de relação de classe no interior
do qual, através da noção de consumo conspícuo, a moda é relacionada
ao luxo ostentatório que demarca a honorabilidade social daquele
que pode mantê-lo. Este enfoque recebe uma análise mais prolongada
porque dele, conforme argumenta o A., poderíamos extrair uma
conseqüência máxima destes modelos e ao mesmo tempo entrever
uma característica fundamental da moda, até então obscurecida.
Veblen caracteriza toda moda como essencialmente "feia",
uma vez que produz um acúmulo de inovações não funcionais,
concebidas apenas para exibição. Na perspectiva deste sociólogo,
a dimensão estética da moda seria muito "reduzida"
ou "inexistente". Esta conclusão inaceitável, segundo
Lipovetsky, não nos deve fazer abandonar o conceito de consumo
conspícuo. A dificuldade surge porque Veblen não deu atenção
suficiente ao problema do luxo. Este supõe uma aplicação intensa
sobre os elementos físicos dos objetos - forma, cor, matéria-prima,
etc. - na busca da exibição visual das diferenças e hierarquias
estabelecidas e a partir do século XIV, o luxo encontrou na
moda um largo campo para seu desenvolvimento. Aqui as relações
sociais insinuam-se novamente na formação dos movimentos da
moda. A ostentação de luxo tornou-se necessidade fundamental
para a nobreza européia a partir do século XIV quando seu
prestígio social e poder político começaram a experimentar
um acentuado refluxo, obrigando-a aos "gastos suntuários
de representação", a uma acirrada luta em torno de signos
distintivos.
Referimo-nos então à formação
das sociedades de corte como forma de encaminhamento dos conflitos
entre estratos da burguesia, da nobreza e monarquias. No entanto,
estas transformações sociais e políticas não podem dar-nos
a inteligibilidade da moda mas apenas do encontro moda/luxo,
que acentua os efeitos estéticos que a primeira deve fornecer.
As "condições sociais de emergência da moda" são,
então, a noção esboçada pelo A. para evitar as interpretações
mecanicistas e deterministas em análise social mas ao preço
de "separar" definitivamente relações sociais e
produção de sentido (neste caso, especificamente, de valores
culturais).
Com relação à moda industrializada
do século XIX, ele também não deixa de considerar as transformações
econômicas e sociais que conformam um novo período para a
moda em vestuário. A partir desta época, a roupa, antes um
objeto de fabricação artesanal e doméstica muitas vezes apenas
para consumo próprio e não para comercialização, passa gradativamente
a transformar-se num produto industrial: primeiramente (por
volta dos anos de 1820) as roupas que não eram de luxo na
confecção industrial e posteriormente (a partir de 1857/8)
as roupas de luxo que passaram a constituir a alta costura.
Estabelece-se, de um lado a produção limitada de artigos de
luxo diferenciados e, de outro, a produção massificada de
artigos comuns padronizados. (Ao longo do tempo, a confecção
industrial atingiria um patamar de diversificação dos produtos,
dado o contínuo progresso tecnológico que experimentou, no
entanto, até bem recentemente os modelos eram fornecidos pela
alta costura).
Trata-se, portanto, da
transformação da roupa de moda em mercadoria na sociedade
capitalista. O A. define a alta costura como uma empresa de
criação e de espetáculo publicitário. A partir de Charles
Worth a roupa de moda constitui um produto comercializado
por uma empresa, um artigo oferecido a clientes e não encomendado
e definido pelo usuário ao qual o(a) costureiro(a) atendia.
Os modelos são concebidos pelo costureiro, posteriormente
apresentados aos clientes e executados sob medida após escolha.
E a roupa de moda é comercializada segundo uma nova técnica
que começava a desenvolver-se, a publicidade, esse o sentido
da inovação na apresentação dos modelos: em desfile de mulheres
jovens portando as roupas de luxo (inicialmente denominadas
"sósias", mais tarde manequins).
Concebida como empresa,
a confecção de roupas de moda estabelecerá seu ritmo de criação
e apresentação, ou seja, de produção e circulação, segundo
interesses comerciais: o A. mostra-nos como as datas de apresentação
sazonais (inicialmente apenas verão e inverno e depois incluindo
outono e primavera, a meia-estação) tornaram-se fixas em função
das exigências dos compradores profissionais estrangeiros
a partir da intensificação do comércio internacional após
a Primeira Guerra Mundial. A organização comercial da alta
costura já tornava pouco antes, nos anos de 1908/10, os desfiles
em apresentações espetaculares com horários fixos nos salões
das grandes casas.
Estruturada segundo os
novos padrões industriais, a moda em vestuário tenderá a anular
as incertezas que poderiam prejudicar a comercialização: as
contínuas mudanças nas roupas, que caracterizam o vestuário
de moda, não experimentarão uma aceleração, como se acredita
comumente, mas uma regularização: a um ritmo aleatório e a
um certo fortuito na origem das inovações impuseram-se o ritmo
regular e a especialização na criação (exclusiva agora do
costureiro).
O surgimento da alta costura
- comercialização empresarial da roupa feminina de luxo -
acentuou uma certa unificação do traje europeu que se esboçava
desde o século XVIII mas que até então mantinha significativas
diferenças de caráter nacional. A alta costura francesa, articulada
à confecção industrial, expandindo-se para outros países e
difundindo-se para outras camadas sociais de menor poder aquisitivo,
viria também a constituir um produto de consumo de massa,
elaborado em série e padronizado.
Nenhuma destas transformações
na produção do vestuário é convocada pelo A. para dar-nos
a inteligibilidade do fenônemo moda. A roupa de moda, enquanto
mercadoria, constituiria apenas um obstáculo à realização
do potencial democrático da moda e não poderia constituir
explicação para a vinculação desta aos valores modernos do
novo e da individualidade.
Como se percebe, apenas
arroladas para explicar a importância da dimensão estética
da moda, as condições sociais e culturais não podem constituir
fatores que expliquem a origem histórica da moda. Estranhamente,
tais condições são dispensadas da explicação fundamental do
fenônemo, consistindo apenas numa espécie de receptáculo passivo
que dá ao fenônemo uma localização de tempo e lugar mas não
constituem, em nenhum momento, as forças que atuaram para
seu aparecimento. Partindo de uma má colocação do problema
da moda, numa concepção que desarticula práticas e representações,
Lipovetsky, ainda que ponha em evidência no seu trabalho a
importância do "sensível" na organização social,
perde a oportunidade de elaborar uma proposta de encaminhamento
para a análise das dimensões materiais da moda como fenônemo
social.
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