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de Teses
SOUZA,
Gilda de Mello e. O espírito das roupas: a moda no século
XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, pp. 255.
Texto publicado
por Adilson José de Almeida em Anais
do Museu Paulista; história e cultura material.
São Paulo, v.3, p.273-6, 1995
Este livro é a publicação
da tese defendida pela A. em 1951. Ele conta com um apêndice,
no qual a A. discorre sobre o rapé, um produto muito utilizado
no século XIX, e duas peças de indumentária feminina, o xale
e o colete (espartilho); e mais uma sequência de 36 fotos,
cujas legendas identificam tipos característicos da época:
fazendeiros, militares, estudantes de direito, jovens senhoras,
etc. Ressaltem-se também os cuidados de edição no intuito
de atingir um amplo público e contemplar um tipo de obra na
qual visualizar os objetos em questão, no caso a indumentária,
é fundamental: assim, o texto é inteiramente acompanhado por
imagens e estas por comentários em destaque ao pé das páginas,
que não só ilustram mas explanam ou sintetizam todos os assuntos
discutidos.
O estudo desenvolve-se
em torno de dois assuntos principais. A diferenciação sexual
acentuada no século XIX, plenamente observável no vestuário
de homens e mulheres e oportunidade para a A. explicar a "cultura
feminina", relacionando o investimento na indumentária
para fins de sedução a práticas sociais como a exclusão da
mulher do mundo do trabalho (confinando-a ao trabalho doméstico)
e realização pessoal apenas por intermédio do casamento; e
o engate da moda com as questões de mobilidade social, processo
intensificado com as transformações sociais daquele século.
O instigante capítulo final sobre a "festa" como
fato social, constituindo-se na "grande fantasia"
da aproximação - entre homens e mulheres e entre classes sociais
- recolhe toda a análise anterior, encaminhando o estudo da
indumentária como uma excelente estratégia de análise das
sociedades democráticas.
Seu trabalho é significativo
ainda hoje, em primeiro lugar porque constitui-se numa das
poucas pesquisas acadêmicas brasileiras sobre moda e vestuário
publicadas e, em segundo lugar, porque desenvolve entre nós
os termos do debate iniciado ainda no século XIX, promovido
por sociólogos e antropólogos em torno da moda, cuja definição
conceitual deve buscar localizá-la num ponto intermediário
entre os costumes e as manias.
O costume definiria, então,
aqueles comportamentos que tendem à permanência e que, portanto,
ligando-se preferencialmente à tradição, impõem-se coercitivamente
ao indivíduo (conforme Gabriel Tarde, Steinmetz, Sapir); a
moda caracteriza-se também como um fenônemo coletivo que age
coercitivamente sobre os indivíduos, mas suas mudanças são
mais freqüentes e nela se introduz o problema das escolhas
pessoais, posto que possuindo uma dimensão estética implica
a questão do gosto (uma modulação individual sujeita à aprovação
coletiva); as manias - fads, crazes e hobbies - são variações
ocorridas no interior de pequenos grupos e estando mais sujeitas
ao gosto, exercem sua força de imposição de maneira muito
localizada e fluida, podendo mesmo perdê-la completamente
pois a "extravagância" suscita frequentemente a
desaprovação coletiva - não podem, como a moda, caracterizar
uma sociedade e nem mesmo uma classe social.
Nesta perspectiva a moda
é um fenônemo significativo para análise social por estar
referida à organização da vida social e não só às especificidades
da vida individual. Suas características são compreensíveis
considerando-se seu papel mediador nas relações entre grupos
e classes sociais e deve-se, enfim, apreendê-la em sua eficácia
coercitiva. Por isso, podemos entender porque neste estudo
o surgimento da moda está vinculado a dois fatores: desejo
de competição e hábito da imitação (que ganharam força na
Renascença com as novas condições postas pelo desenvolvimento
do espaço urbano e da vida nas cortes: a proximidade espacial
entre pessoas). O significado da moda não é apreendido nos
problemas relativos à origem da inovação mas, preferencialmente,
no movimento de sua difusão.
O esquema da moda funciona
livremente no século XIX. Na constituição das sociedades industriais
e democráticas, com o fim das barreiras políticas e jurídicas
à ascensão social, a competição instaura-se plenamente e a
moda pode realizar-se em toda a sua potencialidade, acelerando
a velocidade de suas variações e a sucessão dos estilos. Mas
se a competição entre grupos e classes sociais é o fator que
impulsiona a moda, os comentários sobre a Renascença revelam
que no núcleo da competição estaria não tanto o interesse
em distinguir-se mas a preocupação em imitar. À competição
se lançam os grupos em ascensão social que passam a copiar
as inovações surgidas naqueles de maior domínio e prestígio
na hierarquia social.
Este enfoque parece levar
a uma concepção restrita, por exemplo, do significado das
leis suntuárias (que prescreviam o tipo de indumentária permitida
a cada categoria social). Estas leis são tomadas pela autora
como tentativas infrutíferas de uma sociedade de ordens em
manter-se como tal, simples formalidades que sobrevivem, apesar
da expansão de práticas sociais que lhe são contrárias. O
problema a ser compreendido seria o abrandamento destas leis,
concebidas para restringir os grupos sociais participantes
do jogo da moda mas tornadas ineficazes conforme a riqueza,
ao longo do tempo, supera a condição de nascimento como critério
de prestígio na hierarquia. Na verdade, seria preciso compreender
a permanência destes dispositivos legais, aplicados com maior
ou menor eficácia - situações que uma pesquisa histórica necessitaria
esclarecer - por um período tão longo (pelo menos do século
XIV, época de seu intenso reforço, até o século XVIII), mesmo
sob formas de organização social tão diferenciadas.
O "gosto" aparece,
então, como obstáculo à compreensão da moda. Steinmetz estabelece
como procedimento fundamental na metodologia de análise a
observação empírica do exercício da moda (devemos examiná-la
com "nossos próprios olhos"). A A. procura afastar-se
da proposta e aponta como dificuldade a restrição do pesquisador
à observação do gosto, que não poderia nos revelar as linhas
essenciais do desenvolvimento da moda mas apenas fornecer-nos
as justificativas dos agentes e não suas motivações mais profundas
para a adoção de uma dada inovação. Distinção pertinente entre
processo sociais e a consciência que se pode ter deles, mas
que descarta o exame dos elementos físicos - cores, matérias-primas,
formas - e minimiza a análise da dimensão estética das roupas
e as mediações entre individual e coletivo implicadas na moda
(embora explicitamente consideradas).
A A. enfatiza a complexidade
do fenônemo e as dificuldades para seu estudo: "serve
à estrutura social, acentuando a divisão em classe; reconcilia
o conflito entre o impulso individualizador de cada um de
nós (necessidade de afirmação como pessoa) e o socializador
(necessidade de afirmação como membro do grupo); exprime idéias
e sentimentos, pois é uma linguagem que se traduz em termos
artísticos. Ora, esta expressão artística de uma linguagem
social ou psicológica - o aspecto menos explorado da moda
- talvez seja uma de suas faces mais apaixonantes" (p.29).
Contudo, mais adiante afirma: "No entanto, se cada vez
que o estilo varia a moda cai sob o domínio da arte, o que
explica a mudança?... Esta pergunta quem a responde, a nosso
ver, não é mais a Estética e sim a Sociologia" (p.51).
Faz-se aqui uma opção mas estabelecendo uma dicotomia entre
análise estética e abordagem sociológica. Uma formulação que
deixa escapar o problema da materialidade mesma de um objeto
- as roupas - na formação, desenvolvimento e mudança de relações
sociais.
Não se trata, como podemos
verificar nos trechos citados, da desconsideração de qualquer
significado social do vestuário mas sim de conceber a subordinação
da estética da indumentária às transformações ocorridas no
contexto social (relações políticas, econômicas, estratificação
de classes). No entanto, as análises desenvolvidas no livro
superam estes enunciados gerais e apontam para outras direções
de pesquisa. No exame do pronunciado antagonismo entre os
papéis masculino e feminino estabelecido no século XIX, é
nas formas, nas cores e nos tecidos que podemos verificar
tal distinção, materialmente assegurada, e percebermos como
uma dada forma de organização social (as sociedades democráticas)
conformam as dimensões físicas da indumentária. No exame das
diferenciações de classe há passagens muito sugestivas, como
aquelas referentes às modificações nas saias entre os anos
1850-1880. Constatamos que a saia-balão e a crinolina atingem
seu volume máximo, tolhendo a capacidade de movimento de suas
usuárias, num momento em que a tecnologia do transporte -
é a época dos trens - ganha um forte impulso; em seguida,
abandonada a preocupação com os volumes, surgem as caudas,
longas que têm o mesmo efeito de não facilitar a movimentação;
e mesmo uma mudança mas significativa como o aparecimento,
nos anos de 1880, das saias justas, com inúmeros adereços,
que dificultam até mesmo o ato de sentar.
Estas constatações, ligadas
às considerações de Veblen sobre o consumo conspícuo (p.125),
levaram a A. à seguinte conclusão: "Como se vê, a moda
tanto pode refletir as transformações sociais como opor-se
a elas através de inúmeros subterfúgios, todas as vezes que
há perigo de uma aproximação excessiva entre as classes e
os sexos" (p.129). As transformações sociais seriam a
característica dominante das sociedades democráticas do século
XIX, e esta "oposição" que a roupa pode fazer ao
seu próprio "tempo" deixa entrever outras dimensões
sociais do vestuário. Aqui ele se apresenta como um verdadeiro
dispositivo material que conforma os movimentos físicos do
indivíduo, mobilizando o corpo na efetivação "concreta"
das relações sociais. Quase nos deparamos nestas considerações
acima com o problema dos suportes sensíveis que as relações
sociais necessitam para realizar-se.
Uma revisão minuciosa
deste trabalho poderia demonstrar que a dificuldade que impediu
a formulação do problema encontra-se no campo mesmo de opções
em que se colocou a A., discutidas a propósito da questão
da roupa de moda considerada como criação artística (capítulo
2). Afirma, então, sua preferência pelo método da "ligação
das coisas simultâneas" defendido por Taine, em detrimento
da concepção de "espírito do tempo" que se encontra
em James Laver ou G. Heard. Ambas as posições, no entanto,
supõem constatar um paralelismo tanto no âmbito das artes
(pintura, escultura, arquitetura, etc.), quanto no âmbito
dos objetos (indumentária, objetos de interiores, etc.) muito
duvidoso em alguns casos (G. Heard refere-se à predominância
das formas cilíndricas no século XIX: a cartola é cilíndrica,
o túnel e a chaminé também o são). A consequência de uma tal
colocação é a preocupação com o elemento comum que estaria
presente em todas as manifestações sociais e materiais de
um determinado período, em detrimento do caminho mais frutífero
de pensarmos as formas de articulação de atividades sociais
diversas, ou de forma mais precisa, dos diferentes níveis
da organização social (econômico, material, político, ideológico,
imaginário).
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