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Banco
de Teses
ABREU, Alice Rangel de Paiva.
Avesso da moda: trabalho a domicílio na indústria de confecção.
São Paulo: Hucitec, 1986, 302p. (ESALQ/USP)
Resumo
Este trabalho
é a publicação da tese de doutoramento defendida pela A. na
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP,
em 1980. O título dá bem a entender o interesse que encerra
para os estudos sobre vestuário pois o enfoque recai em área
pouco contemplada em textos para um público não especializado,
a produção de roupas de moda, o que conhecemos hoje como confecção
industrial. A pesquisa consiste em duas partes: numa introdução
sobre o desenvolvimento do trabalho industrial a domicílio
desde a Revolução Industrial, especialmente na indústria de
confecção; e na análise de uma série de 53 entrevistas realizadas
com operárias de fábrica, costureiras internas (empregadas
nas oficinas de confecção) e costureiras externas (mulheres
contratadas pelas oficinas mas que trabalham no próprio domicílio).
Trata-se de um estudo em sociologia do trabalho no qual analisa-se
a estrutura do emprego feminino e as condições de trabalho
num setor específico da indústria de confecção brasileira:
as oficinas de confecção de roupa feminina de alta qualidade
(vendidas apenas em butiques), na cidade do Rio de Janeiro.
Seu valor para
o debate sobre as formas de organização da economia contemporânea,
vale dizer para a compreensão dos mecanismos de reprodução
do capital, é amplamente reconhecido no prefácio de Heleieth
Saffioti. Neste aspecto o ponto principal é a persistência
daquelas atividades econômicas que escapam às regulamentações
legais, comumente denominadas setor "informal" ou
"invisível" da economia e nelas do trabalho a domicílio.
Este último é o objeto de interesse da A.. Seguindo os estudos
de E. Thompson, demonstra como na primeira fase da Revolução
Industrial (1780-1840) constitui a forma predominante; apenas
na indústria têxtil o sistema fabril implantou-se fundamentalmente
(sobretudo na produção de algodão e lã). A constituição do
mercado de trabalho capitalista não teria se dado, então,
pela passagem do artesão independente para o operário de fábrica,
mas predominantemente pela subordinação do trabalhador industrial
a domicílio aos interesses do capital. Os efetivos globais
do trabalho a domicílio subordinado à produção industrial
diminuíram desde a segunda metade do século XIX mas este não
desapareceu. As estatísticas que a A. pode trabalhar ao longo
do século XX, tanto para os países altamente industrializados,
quanto para os países da América Latina, sobretudo para o
Brasil, demonstram a importância dos setores informais e neles,
do trabalho a domicílio para a produção econômica.
A persistência
desta forma de organização do trabalho deve-se à sua utilização
como forma de diminuir os custos com o fator trabalho. Observa-se
que ela se enfraquece em determinados períodos quando é alcançada
por regulamentações legais, principalmente aplicação de direitos
trabalhistas que encarecem sua remuneração (são exemplos as
Trade Boards da Inglaterra, no início do século, e a legislação
italiana de 1973). É esta característica que faz com que a
partir dos anos 60 muitos pesquisadores latino-americanos,
incluindo os brasileiros, a analisassem como forma estrutural
da organização econômica capitalista nos marcos de uma discussão
sobre o desenvolvimento econômico desigual e combinado, à
qual a A. vem trazer sua contribuição.
Ocorre que se
o interesse econômico pode explicar satisfatoriamente este
aspecto da organização estrutural da produção capitalista,
a organização da produção e do trabalho na indústria de confecção
só são compreensíveis quando analisamos a articulação do objetivo
econômico de maximização dos lucros da empresa capitalista
com valores culturais. São fatores culturais da organização
econômica que transparecem nos argumentos desenvolvidos pela
A., aos quais ela, por vezes, atribui peso na discussão, aspecto
também observado pela prefaciadora que faz referência ao que
denomina "diferenciação extra-econômica na massa de trabalhadores",
dando relevância aos aspectos ideológicos e políticos na dominação
econômica.
A A. apresenta-nos
quatro características específicas da indústria de confecção:
baixo impacto de inovações técnicas; heterogeneidade da estrutura
industrial; alta divisibilidade do processo de produção; fundamental
importância da atividade de comercialização, sobretudo de
marketing. Estas características mais o processo de feminização
do trabalho a domicílio, discutido no texto, só podem ser
compreendidos na análise dos valores culturais envolvidos
na produção industrial do vestuário, a saber, aqueles oriundos
da divisão sexual do trabalho que depreciam o trabalho feminino
e aqueles que aprofundam as diferenciações entre as identidades
de homem e mulher.
A utilização
do trabalho de mulheres, crianças e outros grupos como imigrantes
constituem desde o século XIX um fator de barateamento de
mão-de-obra pois sua remuneração sempre foi menor do que aquela
estabelecida para homens adultos. Após a Primeira Guerra a
A. mostra-nos como o trabalho feminino transformou-se no principal
fator de economia nos custos do trabalho, justamente porque
o trabalho a domicílio foi mantido principalmente nas indústrias
que tradicionalmente empregavam mão-de-obra feminina, como
aquelas de confecção de vestuário feminino e de chapéus (não
é acaso que os vários estudos contemporâneos sobre estrutura
do trabalho feminino utilizados pela A. são também estudos
sobre a indústria de confecção). Sua pesquisa no mercado de
trabalho brasileiro demonstra os mesmos objetivos para o emprego
de mão-de-obra feminina, mostrando seja a subcontratação de
costureiras externas fora do regime de CLT (Consolidação das
Leis do Trabalho), seja a fraca posição das costureiras na
negociação dos valores a serem pagos pelos serviços, ou ainda,
a aplicação de uma política de rotatividade de mão-de-obra
que pode ser inferida a partir da constatação de que a mobilidade
profissional das costureiras é predominantemente horizontal
(mudança de emprego) e não vertical (ascensão a postos melhor
remunerados numa mesma empresa).
Esta função do
emprego feminino nos custos do fator trabalho explica-se pela
persistência da divisão sexual do trabalho nas sociedades
industriais, que deprecia a remuneração do trabalho da mulher
ao considerá-lo "complemento" do trabalho masculino.
Se esta situação é apontada em trabalhos sobre a Revolução
Industrial, a A. pode observá-la no estudo de caso que desenvolveu.
Compreender as diferentes formas de inserção das costureiras
no mercado de trabalho da indústria de confecção implica considerar
o papel da mulher na família e, de fato, a A. pode demonstrar
como "os vínculos com as responsabilidades domésticas
em distintas etapas do ciclo familiar vão influenciar o tipo
de participação no mercado de trabalho".
As tarefas domésticas
sendo responsabilidade das mulheres tornam o trabalho assalariado
uma opção em momentos de prementes necessidades financeiras.
Assim, o trabalho como costureira interna numa fábrica, implicando
trabalho fora do lar, aparece como complemento da renda familiar
nos períodos nos quais o marido não pode sozinho sustentar
as despesas domésticas ou quando elas próprias eram obrigadas
a prover o sustento (quando viúvas ou separadas). Já o trabalho
a domicílio aparece como uma forma de trabalho remunerado
que não perturba significativamente as atividades domésticas
e é inclusive mais aceito pelos maridos (em geral há conflitos
com estes) e permite também um acréscimo na renda familiar
para atender a necessidades importantes em diferentes períodos
do ciclo de vida familiar (construção da casa própria, despesas
com os filhos).
A costura externa
permite uma flexibilidade na organização do trabalho, que
possibilita à mulher ocupar-se de suas atividades domésticas
mas isto de uma maneira especial pois realizar as tarefas
aí implicadas significa cumprir suas obrigações de dona-de-casa
e, portanto, desempenhar seu papel de mulher. A alocação dos
recursos financeiros da família é realizada também segundo
as obrigações próprias do marido e aquelas da esposa. O salário
da mulher é empregado em itens específicos como a complementação
da alimentação diversificando os itens da cesta básica da
família. Assim explica-se a ocorrência deste tipo de trabalho
industrial a domicílio pela possibilidade de manutenção de,
nos termos da A., um padrão ideal de distribuição de tarefas
entre homens e mulheres das classes trabalhadoras (respectivamente
trabalho remunerado e trabalho doméstico) e as "correções"
sistemáticas que sofre diante das necessidades de complementação
da renda familiar.
A pesquisa indica,
portanto, que a possibilidade de manter a divisão sexual do
trabalho torna o trabalho industrial a domicílio receptivo
às classes trabalhadoras. Quanto às diferenças entre as identidades
de homem e mulher, é sabido que no início do século XIX acentuaram-se
as diferenças formais entre os trajes masculino e feminino,
este com uma quantidade muito maior de elementos decorativos
e submetido a variações sazonais que caracterizam a moda em
vestuário, ao contrário do primeiro, experimentando um menor
número de variações e menos submetido às mudanças da moda.
De uma forma geral considera-se a roupa masculina simples
e a feminina complexa. É sabido também que estes dois padrões
diferenciados de vestuário estão referidos à construção da
identidade masculina e da feminina, em acentuada oposição
segundo os papéis atribuídos a cada um no mundo social do
trabalho e mundo privado do espaço doméstico. É pouco conhecido,
no entanto, o quanto a organização da produção e do trabalho
na indústria de confecção - considerando suas três primeiras
características apontadas anteriormente - estrutura-se em
função da construção da identidade de homem e de mulher.
O vestuário masculino,
simples e experimentando poucas variações no padrão, não apresenta
dificuldades técnicas de produção e cria uma demanda estável
que permite a estandardização dos produtos e os ganhos de
escala, suportando os custos de uma estrutura administrativa
para controle do trabalho parcelado; o feminino, ao contrário,
complexo e extremamente variável no padrão, apresenta muitas
dificuldades técnicas de produção e estabelece uma demanda
instável que não permite a estandardização dos produtos e
os ganhos de escala. A lucratividade na produção de roupas
femininas está na flexibilidade da empresa em atender as contínuas
modificações na demanda e na aplicação do fator trabalho,
eliminando-se despesas com estrutura administrativa.
Quanto à quarta
característica da estrutura da indústria de confecção, a divisibilidade
das tarefas e o monopólio das atividades de criação, preparação
(modelagem e corte) e comercialização dos produtos, destacando-se
nesta última o investimento em marketing, sua discussão é
um pouco mais desenvolvida no capítulo 3, no qual utiliza-se
entrevistas com proprietários de oficinas de confecção para
compreender com maior detalhe a organização das empresas.
Verifica-se que devem ser flexíveis quanto à produção para
responderem de maneira rápida às constantes mudanças na demanda.
Estruturam-se como empresas de pequena e médio porte, em geral
com uma produção de duas mil a cinco mil peças/mês, através
de uma equipe interna de vinte a trinta pessoas, que centraliza
as atividades indicadas acima e ao mesmo tempo contratam costureiras
externas para a fase de produção, reduzindo os custos de capital
fixo e mão-de-obra.
O sucesso dos
empreendimentos no setor depende em muito do que poderíamos
chamar "capital cultural". A experiência administrativa
e a capacidade de gestão financeira são requisitos para a
boa condução das empresas mas a inventidade na criação e a
sensibilidade para perceber os modelos de maior demanda numa
estação (diagnosticar tendências) são exigências que determinam
o sucesso ou fracasso de uma tentativa. Entre as empresárias,
exclusivamente, constata-se que muitas vezes começaram com
um capital muito baixo e sem nenhuma experiência empresarial
mas cujo sucesso podemos explicar através do conceito de habitus
elaborado por Bordieu pois observa-se que suas relações sociais
e seu circuito de estudos e viagens as aproximam do público
cuja demanda procuram atender.
O estudo da industrialização
pelo sistema fabril da confecção de roupas nos países desenvolvidos
mostra todas essas características do setor. A produção de
vestuário pelo sistema fabril iniciou-se nos anos de 1880
e já desde meados do século surgiam inovações técnicas no
setor, a mais destacada sendo a máquina de costura (primeira
versão comercial em 1851), mas são transformações que ou aumentaram
a produtividade do trabalho a domicílio ou ocorreram e tiveram
aplicação em ramos específicos da indústria de confecção,
calçados e roupas masculinas, mercadorias suscetíveis de padronização.
A produção fabril
de vestuário feminino iniciou-se durante a Primeira Guerra,
intensificando-se durante a década de 20. Transformações nos
custos de mão-de-obra são um primeiro fator a considerar (examinando
o caso inglês, a diminuição da imigração judia durante a guerra
e a regulamentação do trabalho a domicílio através de Trade
Boards encareceram o custo desta forma de relação de trabalho).
Ao mesmo tempo, os custos com investimento em técnicas de
produção haviam diminuído em relação a períodos anteriores
com os aperfeiçoamentos das inovações já utilizadas na fabricação
de roupas masculinas e então largamente utilizados na confecção
de uniformes militares. Mas há também uma transformação no
padrão formal do vestuário feminino que possibilitou sua produção
em série nas fábricas. Ocorre uma simplificação da roupa de
mulher durante a guerra que diminui os problemas técnicos
para sua confecção, mudança que se torna padrão para as décadas
seguintes e para a qual concorrem transformações em valores
sociais (a decadência do princípio aristocrático do conspicuous
consumption, nos termos de Lipovetsky).
Embora o sistema
fabril tenha se introduzido em toda a indústria de confecção,
a escala dos empreendimentos permaneceu pequena em relação
a outras indústrias e o trabalho a domicílio continuou empregado
de forma constante. Uma nova expansão do sistema fabril na
confecção de vestuário ocorre com a eclosão da Segunda Guerra.
Surgiram grandes fábricas de roupas femininas, de produção
em larga escala, mas elas só se mantiveram no pós-guerra para
aqueles produtos suscetíveis de padronização (jeans e roupas
íntimas) permanecendo seu grau de desenvolvimento técnico
comparativamente menor do que de outras indústrias leves como,
por exemplo, a eletrônica.
O mesmo tipo
de desenvolvimento experimentou a indústria de confecção brasileira.
Quanto aos setores de maior produção, em 1920 a indústria
de calçados e chapéus ocupava mais da metade da mão-de-obra
empregada no setor de confecção; na fabricação de roupas predominavam
as roupas brancas ("internas"). Quanto as roupas
"exteriores", as femininas e infantis eram tão inexpressivas
que estavam incluídas na categoria "roupas para homens".
Esta situação indica que boa parte da demanda era atendida
pelo produtor independente, o alfaiate e a costureira.
A partir da década
de 1960 a roupa feminina tornou-se o produto de maior importância,
superando a produção de outros setores. Desde então verifica-se
um crescimento significativo das empresas de médio e grande
porte e a heterogeneidade estrutural verificada para os outros
países observa-se também no Brasil pois nas décadas de 1970/80
as pequenas empresas constituíam 88,1% dos estabelecimentos
e ocupavam 32,1% da mão-de-obra. A utilização de trabalhadores
a domicílio continuou importante, pois na indústria de confecção
constituem a maior parte do trabalho informal, para cuja relação
com o trabalho formal alguns estudos apontam os seguintes
índices: em 1970, relação 1:3; em 1980, relação 1:1,54.
Texto
publicado por Adilson José de Almeida em Anais do Museu Paulista;
história e cultura material. São Paulo, v.3, p.276-81,
1995
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