|
Adilson José de Almeida
O objetivo desta comunicação
é discutir o vestuário, especificamente as roupas do século
19, como um dispositivo material de modelação do corpo utilizado
na construção histórica das diferenças de gênero. A modelação
do corpo não significa somente alterações das suas características
físicas através de peças como, por exemplo, os espartilhos
que alongavam a silhueta feminina ao comprimir tórax e abdome.
Neste caso poderíamos falar propriamente de modelação, mas
faremos referência principalmente àquilo que ocorria mais
freqüentemente, alterações na percepção das dimensões do corpo
- volume, altura etc - de suas formas - retas, arredondadas,
alongadas, mistas etc - e de sua composição - ênfase em determinadas
partes do corpo descobrindo-as ou, ao contrário, cobrindo-as
com maior quantidade de tecidos ou, ainda, através de aplicação
de cores fortes etc.
Aqui tentaremos apenas
formular o problema que nos interessa no momento. Neste sentido,
inicialmente apontaremos as principais características atribuídas
às roupas daquele período tal como aparecem em dois historiadores
da moda e tentaremos, em seguida, contrastá-las com certos
desenvolvimentos de pesquisa sobre história do corpo. Quanto
ao vestuário nos basearemos em considerações de James Laver,
historiador inglês, autor de importantes obras de divulgação
em história do vestuário, dentre as quais tem destaque e está
traduzida para o português A roupa e a moda2; e de Gilda de
Mello e Souza, cuja pesquisa sobre moda realizada nos anos
50 e publicada mais recentemente com o título O espírito das
roupas permanece como um dos mais significativos trabalhos
nesta área. Quanto à história do corpo comentaremos o trabalho
de Thomas Laqueur, historiador da Universidade de Berkeley.
Procuraremos mostrar como suas pesquisas sobre as transformações
na representação do corpo feminino que se processaram no final
do século 18 possibilitam novos encaminhamentos para os problemas
referentes a vestuário, em especial vestuário feminino.
Vestuário feminino e preceitos morais
Um dos temas mais discutidos nos estudos sobre indumentária
é a acentuada diferença entre as roupas femininas e masculinas
no século 19, configurando dois padrões de vestuário bastante
distintos e mesmo opostos, uma ruptura com os séculos anteriores
nos quais as diferenças nos trajes de homens e mulheres não
apresentavam contrastes tão demarcados. Gilda de Mello coloca
a questão em termos de um dimorfismo sexual que acentuaria
o antagonismo presente nas relações entre homens e mulheres.
No século anterior havia
peças básicas tanto para o vestuário das mulheres quanto para
o vestuário dos homens, por exemplo, saias e vestidos para
as primeiras e casacos, coletes e calções para os segundos.
Mas as aproximações eram bastante perceptíveis: meias e perucas
eram comuns a ambos, estas últimas, peças de importância na
indumentária, serviam para demarcar condição social e posição
hierárquica. As roupas coloridas não eram ainda exclusividade
das mulheres, na verdade, os homens se esmeravam também neste
ponto, bem como na ornamentação pois brocados, bordados, rendas,
babados e outros adornos cobriam suas roupas.
A roupa masculina surgirá
da adoção do traje inglês de montaria denominado rinding-coat.
Ela se fixará, então, basicamente, na casaca, que dará origem
mais tarde ao paletó; na cartola, que é provavelmente uma
modificação do chapéu deste traje, o crash-helmet3; e a partir
de 1814, substituindo os calções, na calça comprida lançada
pelo Duque de Wellington. Este será o conjunto predominante
em todo o período, marcado pelas cores "pesadas",
o preto, o cinza e pelo rápido abandono de tecidos leves como
o cetim e a seda em favor do linho e da lã.
A imagem 1 mostra como
já se estabelecia na primeira década do século o traje para
homem. Os elementos decorativos têm ainda bastante destaque,
veja-se, por exemplo, como foram concebidos para chamar a
atenção os bordados nas calças, as duas fileiras de botões
na casaca e a aba ondulada da cartola. O calçado utilizado
é uma bota, o sapato não era moda ainda e, ao pescoço, um
lenço era peça importante. Mas o colorido já desapareceu para
as peças principais e daí por diante será elemento secundário.
A imagem 2 traz dois modelos masculinos ingleses para 1884
e note-se como já neste quarto final de século as peças principais
que compõem a indumentária não se alteraram essencialmente.
A casaca, perdendo as abas, já estava se modificando para
sobretudos, paletós e já apresentando estampas e tecidos mais
variados, mas o tom cinza continuava predominando, inclusive
no chapéu-côco ou chapéu de feltro que começavam a concorrer
com a cartola4. Eram importantes, então, certos adornos, a
bengala em especial, sempre mantida como componente da indumentária
masculina (note-se a imagem 1), mas estes elementos tendem
a uma maior discrição neste período.
A propósito da ornamentação
podemos observar que não é que o homem tenha deixado, durante
todo esse tempo, de aplicar-se sobre elementos da indumentária.
Se as principais peças de roupas eram despojadas, havia um
investimento nos acessórios - chapéus, bengalas, jóias, luvas,
botões - em artigos de tabagismo como os charutos e no tratamento
do rosto, dos bigodes, barbas e suíças. A moda - ou seja,
a inovação - na indumentária masculina não era inexistente
mas ocorria preferencialmente nestes elementos. As mudanças
nas roupas dos homens parecem buscar, então, a contenção,
tendendo a não apresentar a mesma multiplicidade de transformações
que constataremos para o vestuário feminino, mas bem ao contrário,
a reter determinados elementos e produzir uma certa uniformidade.
O vestuário masculino se caracterizaria pela busca da simplicidade.
O vestuário feminino era composto basicamente por vestidos,
saias, blusas e coberturas de cabeça mas as mudanças que estas
peças experimentavam ocorriam numa multiplicidade de elementos:
nas modas sempre se sucediam diferentes tipos de laços, fitas,
rendas, babados, cortes, formatos, cores, materiais (musselina,
organdi, veludo, seda adamascada, gorgorão, tafetá, cetim).
Havia, portanto, um investimento bem acentuado na indumentária
feminina e que parece se orientar segundo uma permanente complexidade.
Consideremos os seguintes modelos:
Vestido de crinolina, c.1860
Vestidos para senhoras
e criança, março de 1877
Lembremos o traje feminino do começo do século na imagem 1.
Um vestido branco de cintura alta, sem volume. Nele, apenas
o bordado na barra, a manga curta bufante e o decote têm algum
destaque. Peça de poucos elementos, assim como os sapatos
sem saltos, ambos conferem a outras peças, o véu e o xale,
uma presença mais ostensiva. Já este da imagem 3, em meados
do século, ganha muito em volume com a inovação da crinolina,
uma armação interna de metal que aumentava enormemente o volume
das saias e que foi concebida como solução para os problemas
de peso e calor ocasionados pelas várias anáguas utilizadas
anteriormente para se obter o mesmo efeito. Esta era a principal
característica deste tipo de vestido, talvez mais evidente
do que a estampa e os trabalhos de bordado e debrum na barra.
Na imagem 4 vemos que o aspecto geral dos vestidos já está
completamente modificado no final da década seguinte, o volume
é diferenciado e é efeito dos babados, franzidos, rendas que
se estendem à cauda, o novo elemento componente destas peças.
As mudanças nas roupas femininas foram mais numerosas e continuaram
posteriormente. Os chapéus tipo boneco que eram, então, utilizados
foram substituídos por diferentes chapéus de pequenas dimensões
que se transformaram em adornos para penteados, estes que
haviam se tornado altos e volumosos na parte de trás. A crinolina
foi modificada para a anquinha, desapareceria por alguns anos
e voltaria como uma projeção horizontal na parte posterior
dos vestidos mas agora incluindo alguns dispositivos concebidos
para facilitar a movimentação das mulheres - o tipo Langtry
recolhia-se quando a usuária se sentava e voltava automaticamente
à sua forma quando ela se levantava. Em seguida a anquinha
desapareceu, também os inúmeros drapeados horizontais e, assim,
os vestidos se tornaram lisos; as saias, por um bom tempo
assumiram a forma de sino. As anáguas retornariam uma vez
mais, as dimensões das mangas voltariam a aumentar mas os
chapéus permaneceram pequenos. As mudanças que assinalamos
no parágrafo anterior bastam, no entanto, para indicar a complexidade
como uma característica do vestuário feminino em relação ao
masculino no período considerado.
O estabelecimento destes padrões não se deu de forma linear.
Uma simplificação geral da indumentária se iniciou por volta
de 1760 com a difusão do padrão inglês de vestuário, caracterizado
por roupas utilizadas no campo onde residia a aristocracia
inglesa, consideradas muito mais simples que os trajes de
corte franceses que acabaram por substituir5. Esta simplificação
ocorreu também no vestuário feminino, acentuadamente durante
o império napoleônico, quando o traje da moda, como vimos,
era uma vestido de cintura alta, sapato sem salto, chapéus
simples. Ocorreram movimentos de contestação a esta tendência,
como a oposição aristocrática dos macaronis na década de 1770
e dos incroyables no período da Revolução Francesa, os quais
procuravam multiplicar os elementos componentes da indumentária
e variar dimensões, formatos, cores. Já nos anos de 1820,
apareceram os dândis, os quais se já nada tinham a ver com
as roupas masculinas do século 18, se caracterizavam pela
elegância e apuro no acabamento do vestuário, uma preocupação
com a indumentária masculina que destoava do padrão que se
impunha.
Só então se estabeleceu a hegemonia dos novos padrões feminino
e masculino de vestuário que permaneceria até o final do século.
Ainda assim, não deixaram de ser questionados por algumas
experimentações que embora constituíssem práticas minoritárias
foram significativas por tentarem apontar e superar os limites
definidos para a concepção das roupas no período. A senhora
Bloomer, por exemplo, propôs um traje feminino que denominou
racional, mas não obteve sucesso e foi mesmo severamente criticada
pois a parte inferior da peça que concebeu se assemelhava
a uma calça. Sua idéia foi formulada na mesma época de predomínio
da crinolina, que diferenciava saias e vestidos tanto quanto
possível desta peça masculina.
Maior repercussão social obteve a figura da lionne, uma mulher
considerada ativa, que praticava equitação, por exemplo, esporte
da moda em meados do século 19. Neste caso, no que diz respeito
aos comportamentos desenvolvidos, temos também uma tentativa
de escapar a um modelo hegemônico. As roupas femininas, seja
pela multiplicidade de elementos dos quais se compunham seja
pelas dimensões atingidas, tolhiam os movimentos das mulheres.
Trata-se aqui do problema das táticas de distinção social
pois a demonstração pública da ociosidade da esposa era um
procedimento para demarcar o status social privilegiado do
marido, questão que não desenvolveremos neste trabalho. Basta,
no momento, apontarmos como a lionne procurava superar as
limitações comportamentais impostas às mulheres.
A respeito deste assunto Laver julga paradoxal que as roupas
femininas se constituíssem num empecilho à movimentação das
mulheres justamente no período de desenvolvimento de inovações
técnicas, sobretudo nos transportes - como andar confortavelmente
num trem vestida numa saia armada com a crinolina? - e de
intensa participação em conflitos sociais, duas características
das sociedades européias da metade do século 19. Limitadora
de certas possibilidades do corpo certamente a indumentária
feminina era, mas não constituía um fato paradoxal pois estava
associada ao fenômeno da distinção social como afirmamos e
à construção histórica do gênero feminino, problema que abordaremos
adiante.
Nos anos de 1880 ainda ocorreram novas tentativas para modificação
das roupas de homens e mulheres, nos referimos mais precisamente
ao movimento estético e ao Movimento Traje Racional, que parecem
de alguma forma associados pois o escritor Oscar Wilde foi
identificado a ambos. Neste último havia a preocupação com
aspectos considerados não-saudáveis da moda, seria o caso
da utilização de espartilhos, por exemplo. O primeiro, em
suas linhas gerais, propunha para o vestuário feminino penteados
mais suaves, sapatos sem saltos, também a abolição dos espartilhos
e um vestido de cauda longa então em voga, mas com uma forma
mais solta e de mangas bufantes; para o masculino propôs calções
até o joelho, casaco de veludo, gravata fluída e chapéu wideawake.
Elaboradas em círculos muito estreitos de pessoas e contrárias
a modelos bastante difundidos, estas concepções foram muito
criticadas e até ridicularizadas.
O auge da diferenciação entre as roupas femininas e masculinas
se deu aproximadamente entre as décadas de 1840 e 1890. Nesta
última décadal o surgimento dos trajes esportivos trouxe novos
elementos de aproximação entre estes dois padrões, embora
as diferenças que os separavam não deixaram de marcar as transformações
posteriores do vestuário nas primeiras décadas do século 20.
Foi na década de 1880 que começaram a se difundir, especialmente
na Inglaterra, as roupas especificamente concebidas para a
prática de esportes. Surgiu o casaco de marujo para o iatismo
e também apareceram trajes apropriados para tiro, críquete,
ciclismo e outras modalidades de esporte.
Surgiram trajes esportivos também para as mulheres, roupas
com corte masculino compostas basicamente de paletó, saia
e blusa justa. James Laver observa admirado a adoção de aspectos
da indumentária masculina que não seriam adequados para a
prática esportiva: "O estranho é que, quando as mulheres
iam realizar atividades ao ar livre, elas insistiam em usar
os chapéus e os colarinhos masculinos brancos e altos. As
roupas esportivas femininas eram em geral pesadas, feitas
de tecido rústico ou tweed, sendo em cores normalmente escuras"6.
Em geral, se apresentam três considerações principais sobre
esta diferenciação entre os vestuários masculino e feminino
operada no século 19. A primeira é que a função de sedução
se tornou quase que exclusiva do vestuário feminino e é nele
predominante. Isto porque com a constituição e desenvolvimento
das sociedades industriais, o trabalho se torna um valor fundamental
na organização das práticas e representações. Atividade masculina,
a mulher só passa a obter prestígio social na medida em que
se insere no espaço doméstico, no desempenho dos papéis de
esposa e mãe. Daí a importância em seduzir um homem para contrair
matrimônio, assunto estudado com especial atenção por Gilda
de Mello e Souza.
Já o domínio do homem é o espaço público. Neste, sua posição
social não depende mais da condição de nascimento tal como
ocorria na organização estamental anterior, mas sim de habilidades
e conhecimentos pessoais, ou seja, do seu talento numa sociedade
caracterizada pela mobilidade dos indivíduos entre as classes
sociais. Suas roupas não são mais concebidas, então, para
demarcar uma condição mas para colocar em evidência a personalidade,
o pensamento, a inteligência. Ocorre, então, um despojamento
das principais peças do vestuário masculino, a roupa do homem
perde em grande parte sua função ornamental e deixa de ser
um elemento empregado na sedução erótica. Mesmo os dândis
aos quais no referimos anteriormente são exemplos destas mudanças.
Não resta dúvida de que eles tinham uma preocupação muito
maior com suas roupas mas, ao mesmo tempo, já estavam distantes
dos macaroni do século anterior pois seus trajes eram comparativamente
mais simples na composição e cores, embora o corte fosse irrepreensível
e um tecido leve como o cetim fosse muito utilizado.
É então, a mulher que mobiliza seu corpo e suas roupas para
atrair o olhar masculino. A roupa passa a funcionar para ela
como um dispositivo material para erotizar o seu corpo. Desta
forma, dependendo da composição das peças, a roupa poderia:
1) aumentar o volume dos quadris através do uso das anáguas,
da crinolina, das anquinhas e também de folhos e babados.
2) diminuir a dimensão da cintura, por exemplo, quando se
a contrasta com mangas de grandes dimensões.
3) exibir e esconder, alternativamente, pernas e pés com a
oscilação da crinolina.
4) focalizar determinadas partes do corpo, quando a própria
movimentação da pessoa agitava rendas na barra de saias ou
em decotes de vestidos e blusas.
A segunda consideração é que esta dimensão erótica, desenvolvida
em função do casamento, é intensamente mobilizada num momento
especial, a festa social, oportunidade para as pessoas desenvolverem
a corte amorosa: a mulher pode aplicar-se na atração dos homens
- por exemplo, concebendo para si um exuberante vestido de
noite - e estes, por sua vez, podem exercitar suas habilidades
nos galanteios. Seria em momentos de exceção como a festa,
quando se abrandava a rigidez do código moral estabelecido
no período que, através do vestuário, se poderia exercer mais
livremente o poder de sedução.
É este jogo entre sedução e repressão moral que Laver vê no
século 19 e é a terceira consideração que se costuma fazer
sobre o vestuário. A questão aparece com intensidade nas transformações
da moda em meados do século. No início da década de 1820,
na moda feminina a cintura alta para os vestidos foi abandonada
e as roupas começaram a afinar a cintura feminina. Voltaram
os espartilhos, as saias se tornaram mais amplas e as mangas
fofas. Nos anos seguintes as dimensões destas peças aumentaram
continuamente, a manga chegou à forma conhecida como pernil
de carneiro, as saias diminuíram o comprimento para ressaltar
a largura e as abas dos chapéus se tornaram enormes. Esta
moda predominante até os anos de 1830, afeita a um padrão
do início do século que Laver denomina romântico e extravagante,
começa a mudar e a dar lugar a outro padrão que seria marcado
pela sobriedade, tranqüilidade e delicadeza da indumentária.
Ele observa que o maior recato que começa a caracterizar as
roupas a partir dos anos de 1840 - para as mulheres mangas
de menor amplidão, saias cobrindo os tornozelos; para os homens
o definitivo abandono de cinturas apertadas, ombros almofadados,
camisas de babados - é concomitante ao surgimento da crinolina
que, como afirmamos logo acima, é um elemento da indumentária
que erotiza o corpo da mulher. Segundo James Laver, os vestidos
e saias nos quais se utilizava este dispositivo simbolizariam
duplamente o feminino, tanto pela referência à fertilidade
sugerida pelo aumento do volume na região dos quadris, quanto
pelo que seria um estratagema de proteção, a amplidão que
indicaria a intenção de criar uma barreira às investidas masculinas
e, portanto, de estabelecer uma distância física e moral em
relação aos homens.
Ele nota, então, que a nova estrutura dessas peças de roupa
favorecia a oscilação das mesmas e que se conceberam pantalonas
para impedir que as pernas aparecessem; ainda assim a mulher,
na sua própria movimentação exibia e escondia, alternativamente,
os seus pés, que se tornaram uma zona erógena do corpo feminino.
É aí que Laver diz que esta peça é um elemento da indumentária
que erotiza o corpo da mulher, não nos faz esquecê-lo como
poderíamos supor pelo volume de tecido que o recobria e não
sinalizaria apenas a sexualidade voltada para a reprodução.
Enfim, o que ele está afirmando é que a função erótica do
vestuário voltaria sub-repticiamente em meio à moral dominante,
através, por exemplo, destas brechas na organização do mundo
material.
É preciso observar, ainda que apenas de passagem, a crítica
de Gilda de Mello e Souza à idéia de que à mulher caberia
no século 19 um papel exclusivamente passivo sob a dominação
masculina articulada à diferenciação sexual, argumentando
que mesmo numa prática social de submissão das mulheres haveria
a possibilidade destas desenvolverem um comportamento ativo.
Por exemplo, na sedução de um companheiro para realizar seu
casamento elas poderiam compor sua indumentária não só para
atraí-lo mas como uma forma de auto-expressão, podendo desenvolver
com este procedimento um estilo de existência; e, já o casal
formado, o encanto feminino e a determinação masculina se
uniriam, se tornariam interdependentes e, sem romper com sua
condição subalterna, a mulher colheria frutos na cooperação
com o marido no objetivo comum de ascensão social.
Estas considerações não visam, seguramente, a legitimar uma
relação de domínio, ao contrário, apontam para brechas e pontos
de tensão que poderiam transformá-la. Quanto à pesquisa em
vestuário, indicam a necessidade de avançarmos nas investigações
e reflexões sobre o problema das relações de poder entre os
gêneros.
Vestuário e construção do gênero
É a propósito destas concepções sobre o vestuário do século
19 que as análises de Thomas Laqueur podem contribuir de forma
muito importante. Ele procura demonstrar que na Europa, da
Antigüidade até o final do século 18, as relações entre homem
e mulher não eram compreendidas em termos de diferença de
gêneros mas sim de diferença de grau entre seres do mesmo
sexo - só existia o sexo masculino. É nas mudanças no plano
das representações que surgem os gêneros e suas diferenças,
representações que, assinala o autor, estão imbricadas às
práticas políticas, sociais, culturais que vão se desenvolvendo
a partir de então e que são as nossas hoje em dia. A questão
que vai se esboçando a partir destas considerações de Thomas
Laqueur é o nascimento histórico da diferença de gêneros,
uma forma específica de representação da relação homem/mulher.
A representação dominante até o século 18 é constituída por
duas formas de saber, uma fisiologia do prazer e uma anatomia
das homologias sexuais. Nelas homem e mulher são um único
sexo e não constituem gêneros distintos. Eles se diferenciam
quanto a quantidade de calor presente em seus corpos, princípio
que organiza todo o pensamento fisiológico do período e que
distribui os seres vivos na cadeia hierárquica que formam
no mundo. Assim, entre os animais, os humanos são os mais
perfeitos e entre estes, os homens são mais perfeitos do que
as mulheres em virtude de seu excesso de calor em relação
a elas.
É este princípio do calor que sustenta duas idéias norteadoras
sobre a relação homem/mulher. Primeira: existe apenas uma
genitália para ambos, a única diferença está no fato de que
os órgãos sexuais femininos estão no interior do corpo e os
masculinos no exterior. Entende-se que o calor da mulher é
insuficiente para extrusão dos seus órgãos sexuais (com isso,
ao mesmo tempo, a natureza providenciaria um lugar seguro
para o feto - o útero). Há uma homologia dos órgãos sexuais
femininos e masculinos, a diferença é uma diferença de lugar,
topológica. Nesta concepção os órgãos genitais femininos não
eram, em geral, nem mesmo designados por uma palavra específica.
Galeno, médico do século 2, se referia aos genitais femininos
e masculinos utilizando a mesma palavra, orchis. Bem mais
tarde, já no século 17, um importante físico da época, Regnier
de Graaf, ainda denominava os ovários femininos de testiculi.
A segunda idéia é a seguinte: há necessidade do prazer sexual,
meio de aumentar a quantidade de calor no corpo para garantir
a reprodução. Era legítimo e recomendável excitar a mulher
para assegurar o sucesso da fecundação. Esta idéia era plenamente
admitida entre os físicos e fisiologistas do final do século
18. Albrecht von Haller, um dos maiores nomes da biologia
deste período, interpretava o orgasmo feminino como um sinal
de que o óvulo havia sido expelido do ovário. Continuava a
se atribuir, ainda, importância fundamental ao prazer como
condição para a reprodução.
Mas é nesta mesma época que podemos constatar a formulação
de outras demandas sobre o corpo feminino e seus prazeres.
No iluminismo, por exemplo, a mulher passa a desempenhar um
papel fundamental no surgimento da civilização e é, então,
que a representação sobre ela começa a mudar. Em Rosseau,
a passagem do estado de natureza para o estado de civilização
dependeu do decoro, da timidez da mulher; em Diderot o surgimento
do desejo individual, do casamento e da família só ocorreu
quando a mulher passou a escolher um único homem para seu
companheiro. O prazer feminino tende aí a ser encarado como
obstáculo para o processo civilizacional.
É, no entanto, no início do século 19 que a antiga representação
da relação homem/mulher começa a ser abalada, não em função
das novas elaborações filosóficas, mas sim pela biologia,
através das, então, recentes descobertas sobre reprodução
animal que serão aproximadas no decorrer do tempo à reprodução
humana e conduzirão a uma nova representação do corpo feminino.
A descoberta fundamental destacada por Laqueur é a verificação
de que alguns mamíferos ovulavam espontaneamente em períodos
recorrentes, independentemente de intercurso sexual, concepção
ou prazer. As pesquisas vinham ocorrendo desde as primeiras
décadas do século e foi em 1843 que Theodor Bischoff em suas
experiências com cães demonstrou a ocorrência normal de ovulação
espontânea em mamíferos. Isto significa que se um fenômeno
da reprodução como a ovulação era espontâneo e, ao mesmo tempo,
uma ocorrência normal do organismo, se abria a possibilidade
de interpretar o sistema reprodutivo como um mecanismo próprio
do corpo das fêmeas que independeria do objetivo da fecundação
ou da intervenção de algo externo a ele como o prazer sexual.
O ponto que nos interessa aqui é o fato de que esta evidência
para mamíferos em geral foi estendida, sem nenhuma demonstração
direta, para o grupo humano, às mulheres. A ovulação espontânea
em mulheres era já um objeto de considerações em pesquisas
biológicas mas até aquele período era entendida como uma ovulação
anômala, uma forma de sangramento feminino através do qual
o corpo da mulher expelia excesso de materiais. Como, agora,
a menstruação passa a ser um mecanismo regular e próprio da
mulher e não uma ovulação anômala, esta produção de óvulos
passa a ser, por sua vez, interpretada como o equivalente
do calor nos animais e também já não dependerá mais de intercurso
sexual ou fecundação, como se supunha até então.
Isto significa que perdia validade um aspecto básico da antiga
fisiologia, a necessidade do prazer feminino para a reprodução.
Também as homologias sexuais dos órgãos masculinos e femininos
são descartadas. Os ovários nos mamíferos serão cada vez mais
vistos como um centro de controle autônomo da reprodução nas
fêmeas. Nas mulheres, especialmente, passarão a ser concebidos
como a própria essência da feminilidade. Um biólogo francês,
Achilles Chereau, declarará em meados do século: "é unicamente
por causa do ovário que uma mulher é o que ela é". Walter
Heate, zoólogo da Universidade de Cambridge e militante anti-sufragista
concluirá: "O sistema reprodutivo não é só estrutural
mas funcionalmente diferente no Homem e na Mulher; e desde
que todos os órgãos e sistemas de órgãos são afetados por
este sistema, é certo que Homem e Mulher são essencialmente
diferentes" 7.
Estava nascendo o que Laqueur denomina biologia da incomensurabilidade.
A mulher agora constitui um sexo diferente do homem.
O que ocorre no século 19 na relação homem/mulher é o surgimento
histórico de um sexo, o feminino, condição para a elaboração
do problema da diferença de gêneros8. É esta mudança histórica
que deve ser objeto de reflexão. No que diz respeito ao uso
de vestuário, a sedução, o erotismo não são sub-reptícios
ou só aparecem plenamente em momentos de exceção como as festas.
Na verdade, as roupas são elementos materiais que constróem
no cotidiano a representação da mulher como sexo, e logo gênero,
distinto do homem. É o que explica a recorrência, a insistência
com que aparecem relacionadas à sedução e ao erotismo.
Sobre este ponto, consideraremos rapidamente duas caricaturas
reproduzidas por James Laver.
Caricatura Uma esquina
Caricatura Um andar para
fazer castigada pelo vento, 1864 virar todas as cabeças! 1860
Cabe ressaltar, antes de mais nada, que estas imagens são
apenas dois bons exemplos relativos à representação da mulher
no século 19. Elas não são excepcionais, ao contrário, caricaturas
como estas eram muito freqüentes no período.
É conveniente observarmos também sobre a caricatura tomada
como fonte para a pesquisa, que ela permite a análise de padrões
visuais e cognitivos e, neste sentido, representa uma vantagem
para os encaminhamentos iniciais que desejamos propor. As
deformações obtidas através do exagero das características
físicas de um referente produzem seus efeitos cômicos através
do "deslocamento" de referências habituais e supõem,
para serem compreendidas, um código comum entre artista e
público. A comunicação entre eles começa a se estabelecer,
portanto, a partir dos elementos deste código, entre os quais
se encontram as representações mais gerais compartilhadas
por ambos.
No caso das duas imagens que nos interessam no momento, vemos
que o erotismo é um dos seus aspectos mais importantes. Na
primeira, ele aparece como uma segunda verdade ainda mais
reveladora do que aquela que é objeto de destaque no desenho.
Neste, um certo ridículo aparece na adesão irrestrita à moda,
numa certa fatuidade em seguir um comportamento coletivo.
Fragilidade engraçada e risível das mulheres em seguir a multidão.
Mas revelar um aspecto do comportamento da mulher é, agora
revelar a natureza de um ser. O que faz o caricaturista? Primeiro
ele nos diz que seria muito engraçado se revelássemos como
se comportam as mulheres e como elas são, de fato. Em seguida,
continuando com sua enquête, inventa uma situação e levanta
suas saias para vermos o que se passa com todas elas. É nos
aproximando do corpo da mulher, daquilo que ela tem de mais
específico, é assim que o nosso autor imagina nos conduzir
a uma verdade. Nesta imagem, portanto, verdade e erotismo
se remetem e se esclarecem mutuamente.
Na segunda caricatura a mulher aparece referida à sedução
amorosa. Os dois cavalheiros se acercam da dama, mas são obrigados
a circular em torno dela como que buscando um ponto favorável
à aproximação. A situação é engraçada pois sugere, de início,
um impedimento definitivo a qualquer abordagem, não só fisicamente
em função da estrutura da saia, mas também moralmente em virtude
da proteção que a mulher estabelece para si, indicando qual
seria a sua intenção. Mas se há obstáculos eles não são intransponíveis,
dado que o corpo não só não é recusado efetivamente como,
na verdade, é reintroduzido duplamente em cena. Considere-se
o pé da moça aparecendo, ainda que discretamente: ele sinaliza
a presença de um corpo e nos faz lembrar que a peça de roupa
oscila, não é um elemento passivo, ao contrário, ela chama
a atenção sobre o corpo que a movimenta.
O estratagema da sedução funciona plenamente na situação concebida
pelo artista e nela a mulher mais uma vez está no centro das
atenções.
O que estes dois exemplos nos indicam é que a pesquisa sobre
vestuário deve, então, se voltar com mais ênfase para a dimensão
erótica das roupas no que diz respeito à análise da representação
da mulher a partir do século 19. Mas devemos aqui, longe de
partirmos das diferenças entre masculino e feminino, examinar
como elas são socialmente construídas através das peças de
indumentária utilizadas por homens e mulheres. É avaliando
criticamente novas abordagens na reflexão sobre o corpo que
a história do vestuário poderá contribuir com os desenvolvimentos
que se verificam nos estudos sobre gênero.
Bibliografia
LAQUEUR, Thomas & GALLAGHER, Catherine (ed.) - The making
of the modern body: sexuality and society in the nineteenth
century.Berkeley: University of California Press, 1987, 242p.
LAVER, James. A roupa e a moda: uma história concisa. Tradução
Por Glória Maria de Mello Carvalho. São Paulo: Companhia das
Letras,1990, 285p., il.
SOUZA, Gilda de Mello e - O espírito das roupas: a moda no
século
dezenove. São Paulo: Companhia das Letras, 1987, 255p., il.
Resumo da comunicação elaborada para a 5ª sessão do Simpósio
Internacional Cidadania, Trabalho feminino e Globalização.
Promovido pelo Centro de Estudos de Demografia Histórica da
América Latina (CEDHAL) do Departamento de História da FFLCH/USP
28-30/10/97
Nos estudos sobre indumentária é já um ponto estabelecido
que a moda em vestuário é um fenômeno majoritariamente feminino
a partir do século XIX. Examinando algumas abordagens sobre
este problema procuraremos desenvolver uma análise sobre a
mobilização de objetos materiais, como as peças de roupa,
na configuração das diferenças de gênero.
Currículo para o Simpósio Internacional Cidadania, Trabalho
feminino e Globalização
Adilson José de Almeida
Mestrando em História Social do Departamento de História da
FFLCH/USP, desenvolvendo pesquisa em cultura material sobre
uniformes militares. Técnico de nível superior no Museu Paulista/USP,
co-responsável pelas Áreas de Reserva Técnica do acervo de
objetos. Tem trabalhos publicados nos Anais do Museu Paulista
e Escritos (Departamento de Sociologia FFLCH/USP).
1 Comunicação elaborada para a 5ª sessão do Simpósio Internacional
Cidadania, Trabalho feminino e Globalização
2 As imagens do nosso texto foram reproduzidas deste livro
(vide bibliografia) onde se encontram nas seguintes páginas:
imagem 1 (p.157); imagem 2 (p.205); imagem 3 (p.186); imagem
4 (p.196); imagem 5 (p.178); imagem 6 (p.183)
3 Devemos observar, no entanto, que o chapéu tricórnio, característico
do século 18, já estava sendo substituído por outro de abas
estreitas e copa alta que, retrospectivamente, lembra a cartola.
4 A casaca e a cartola iniciavam uma nova trajetória que transformaria
ambas em peças de trajes de gala para festas sociais.
5 Historicamente a nobreza inglesa não se fixou em torno de
uma corte real como a francesa, as pessoas residiam em suas
propriedades rurais, daí as roupas sem bordados, babados,
rendas, que permitiam atividades como a caça a raposa.
6 LAVER, James - A roupa e a moda, p.209
7 LAQUEUR, Thomas & GALLAGHER, Catherine (ed.) - The making
of the modern body, p.31
8 Há, na verdade, uma problemática mais geral na passagem
do século XVIII para o século XIX. James Laver assinala, a
propósito de uma pintura de William Hogarth, As crianças Graham
(1742), que "há pouquíssima distinção entre as roupas
infantis e de adultos" (A roupa e a moda, p.134). Do
ponto de vista da história do vestuário a criança como categoria
social é outra questão a ser formulada.
|