Patrícia Sant'anna
REVISTAS DE MODA: MASCULINIDADE
E A AMBIGuIDADE NOS ANOS 90
Resumo:
Este artigo reflete sobre a importância
da questão da masculinidade na atualidade e a importante
visibilidade que a moda dá ao repensar desta condição.
Ao longo de minha pesquisa percebi que esta questão
se faz presente tanto dentro das revistas de moda, como também
nas pesquisas antropológicas, coloquei-as em diálogo
para compreender melhor o discurso das revistas de moda sobre
a masculinidade na contemporaneidade.
Para tanto, construi o texto demonstrando
que o discurso sobre a diferença é um recorte
possível de análise e a esse somo uma rápida
abordagem de uma perspectiva histórica. Procuro perceber
como a questão da masculinidade é abordada antropologicamente
por diversos autores e como este tema adentrou em meu estudo.
Demonstro, então, como a questão me instigou
e me incomodou durante o percurso da investigação,
como a discussão da masculinidade e a ambiguidade
são elementos que têm destaque dentro das revistas
de moda. Com este artigo desejo colocar as reflexões
que fiz sobre a importância da moda como locus de uma
exemplaridade das questões sócio-culturais de
nossa atualidade.
Unitermos: Revistas de moda - Ambiguidade sexual - Gênero
- Antropologia Urbana.
Sobre a categoria de gênero
A perspectiva de gênero é
um constructo abstrato de classificação que
emerge da empiria, no entanto, não é presa e
dependente da diferenciação sexual biológica.
Esta última é um dado de referência e
não um dado definidor do estudo. A diferenciação
entre os sexos extrapola para a ordem simbólica (Heilborn,
1990) construindo significados para as diferenças corporais
(Scott, 1994). Assim, gênero, se refere a uma construção
social do sexo (Heilborn, 1994). O papel da antropologia é
analisar os papéis que as pessoas envergam na vida
social e tentar descontruí-los, para melhor compreender
os significados que as diversas construções
de gênero constituem:
"... há machos e fêmeas
na espécie humana, mas a qualidade de ser homem e ser
mulher é condição realizada pela cultura."
(Heilborn, 1994, p. 5)
Com esta concepção, distanciamos
o conceitos sobre papéis sexuais ligados a indicadores
anatômicos e valorizamos a elaboração
cultural, ou seja, gênero deve à noção
de arbitrariedade que a cultura carrega em si. Com isso, a
categoria de análise é relacional onde: (a)
em um primeiro momento assinala a descontinuidade empírica
entre dois corpos (Strathern, 1988) que; (b) são pontos
de referência para a classificação social,
onde se constituirá e transcenderá a diferença
empírica dos corpos, tornando-se uma diferenciação
social, um instrumento de análise da sociedade (Scott,
1994). Instrumento este que (c) constitui uma categoria universal
dependente das atualizações concretas dos sujeitos
para se atualizar e operacionalizar-se (Heilborn, 1993).
Portanto, o dado relacional da categoria
de gênero, sob a perspectiva antropológica, é
o que gera a hierarquização e a assimetria constituinte
desse instrumental de análise . Desta maneira gênero,
é uma categoria que manipula elementos de distinção
entre as construções sociais a respeito da diferenciação
sexual, dos elementos contrastivos, ao mesmo tempo que estes
são complementares e hierárquicos . "As
propriedades simbólicas particulares à constituição
do masculino e do feminino são fenômenos da relação
hierárquica entre eles" (Heilborn, 1994, p.7).
A diferença é desta maneira
inscrita no discursivo. Compreendendo discursivo como todos
os tipos de linguagens pelos quais os humanos dialogam em
sociedade, portanto, uma noção bem ampla (Scott,
1994). Cada vez que pensamos gênero em nossa sociedade,
repensamos os significados históricos e políticos
que damos ao discurso feito a respeito de como percebemos
e vivenciamos a diferença sexual. E é a partir
desta ótica que quero analisar o gênero masculino.
Os motivos de se repensar o masculino hoje O movimento feminista
e o movimento homossexual iniciados na década de setenta
e fortalecidos na década seguinte colocam em xeque
o modelo masculino vigente.
O movimento feminista muda a ótica
e a prática, questionando símbolos e significados
arraigados e internalizados sobre a mulher e tudo o que dela
é consequência (maternidade, corpo, direitos,
posicionamento social e político, etc.) reivindicando
um olhar que parte da própria mulher para se autodefinir.
E o movimento homossexual reivindica sua especificidade como
posicionamento e práticas sexuais como não-patológico.
Ambos movimentos questionaram suas posições
na sociedade e reivindicaram visibilidade para suas causas.
Este questionamento fez com que o modelo de masculinidade
tradicional e das relações patriarcais fossem
colocadas consequentemente em discussão. A partir destes
movimentos o modelo tradicional de homem, e seu estatuto de
universal e genérico, é cada vez mais questionado.
A mudança da representação
se faz necessária. Este repensar o masculino, no entanto,
não muda o sistema de representação de
gênero, o significado primeiro não modifica-se,
o que ocorre é uma rearticulação das
classificações à respeito da construção
dos gêneros. Portanto, enquanto, mulheres e homossexuais
fizeram uma revolução, ou seja, uma mudança
dos sentidos dos conceitos, o homem heterossexual se encontrou
compulsoriamente com um problema: um modelo de posicionamento
que não mais condizia. Portanto, ele deve e tem que
se repensar. Deslocamentos diferentes, portanto: mulheres
e homossexuais revolucionaram, homens heterossexuais repensam.
Repensando as masculinidades
O homem hoje tem uma trajetória
difícil, pois, vivenciar coisas do universo feminino
sem deixar de se reconhecer ser masculino, não é
um movimento fácil. Antes pensemos no projeto da modernidade:
razão + utilidade + domínio. O indivíduo
que aí nasce é o burguês, que possui os
papéis de gênero muito bem definidos: homem conquistador/provedor
(esfera pública) e mulher que cuida da casa (esfera
privada), no século XIX a modernidade começa
a sofrer algumas consequências de suas diretrizes
e a racionalidade, a consciência e a própria
noção de matéria é colocada em
dúvida.
Ao longo do século XX a ciência
e as ideologias foram todas colocadas constantemente a prova
e hoje, pós-movimento feminista, é praticamente
impossível se pensar em um modelo de masculino, pois,
esta síntese não dá para ser resgatada,
já que o sentido totalizador do mundo é algo
superado, é algo não vigente e condizente com
as vivências das pessoas. O mundo hoje vive (e reivindica)
uma existência do plural, do indivíduo múltiplo
vagando e manipulando uma teia de identidades. "A emancipação
do indivíduo na ordem político-social (...)
emparelharia-se com a afirmação confiante e
orgulhosa da individualidade nos domínios da ética
e da estética" (Nolasco, 1995, p. 15) O indivíduo
busca uma singularidade como dado de uma diferenciação
dentro de um mundo pluralizado, assim o individualismo gera
diferentes definições de homem/mulher. Porém,
fugir da anatomia não é possível: "...ela
é pelo menos um ponto de referência e confluência
das possibilidades de reconhecimento das múltiplas
organizações subjetivas." (Nolasco, 1995,
p. 17) .
Portanto, masculino e feminino são
relidos, mas não são valores abandonados, mas
atualizados e confirmados de outra maneira. De qual maneira?
Mais plural, variada e livre, na escolha e manipulação
das categorias de gênero.Toda a discussão teórica
que o movimento feminista proporcionou (e ainda proporciona)
é um importante referente nos estudos teóricos,
não é, no entanto, a base para se repensar na
condição masculina. Repensar o masculino é
perceber como é moldado este olhar que o vislumbra:
ele só percebe aquilo para o qual é treinado
e quer ver, portanto, este masculino do campo da representação
(a visibilidade do empírico).
A cultura (a sociedade, o grupo, o
meio onde vive) determina símbolos que o indivíduo
inscreve no corpo (símbolos de homens e mulheres),
e é a partir daqui que a anatomia (e tudo o que ela
poderia determinar) não pode mais se sustentar. Fica-nos
claro que a polarização existe e sua manipulação
é dado praticamente individual: "É preferível
uma liberdade feita de indeterminação a todas
as certezas que subordinam à sua volta. Assim, o homem
sem qualidades se afirma como um homem do possível
e da experimentação, que não se alarma
ao ver sua identidade passar por contínuos remanejos"
(Nolasco, 1995, p. 29) A presença da 'questão
masculina' em pesquisas antropológicas "... o
ideal de beleza não tem o mesmo vigor para os dois
sexos..." Gilles Lipovetsky Em um ensaio muito divertido
Da Matta (Caldas [org.],1997) reflete sobre a identidade masculina;
o autor retoma a sua adolescência em uma cidade do interior
de Minas Gerais, analisando o como se constituía um
modelo de masculinidade através de uma brincadeira
intitulada "Tem pente aí?" .
O foco de sua análise é
a construção do masculino na adolescência:
momento em que a aparência física é alvo
de preocupação, a corporalidade começa
a ser (re)treinada para que a identificação
de gênero tome outros significados - a diferenciação
deve ser clara, pois estão a caminho de serem adultos.
A masculinidade era constituída em oposição
ao homossexualismo passivo e a impotência (dados que
estão na fronteira com o feminino). Rituais gestuais,
a brincadeira, por exemplo, destinavam-se, sobretudo, a moldar
a masculinidade e separar os 'normais' dos 'fronteiriços'.
Ser homem transborda simplesmente ter um corpo macho, é
antes de tudo, constituir esta masculinidade simbolicamente:
"Um dos preços da masculinidade, portanto, era
uma eterna vigilância das emoções, dos
gestos e do próprio corpo." Roberto Da Matta (Caldas
[org.], 1997, p. 37).
Assim, mais do que marginais, o homossexualismo
e/ou o celibato eram vistos como uma 'traição
ao gênero' , ou seja, um vivenciar a sexualidade que
não fosse com mulheres, mas como mulheres. Brincar
a respeito das nádegas coloca o garoto numa situação
embaraçosa, pois, se o falo é o sinal que ele
carrega de masculino, as nádegas representam o outro
lado da moeda: a ambiguidade, a angústia, o perigo.
Porque o problema não é o ato sexual em si,
mas quem é o ativo da relação . As mulheres
que são a passivas, portanto englobadas (comidas) pelos
homens. A possibilidade disto acontecer com um homem, ser
englobado, inferiorizando-o na hierarquia dos gêneros
é que é visto com angústia e perigo .
Já a impotência, antes colocada, não entra
em um conflito com o gênero, mas sim com o (com)provar
que grau de masculinidade se têm. Só uma mulher
dá a comprovação do quanto se é
homem, pois é o ato sexual que 'atesta' sobre a masculinidade,
principalmente o discurso que discorre sobre o ato. Assim,
o masculino se comprova, nesta análise, como relacional
e complementar ao feminino.
Pensando agora sobre as consequências
da Revolução Sexual. A 'questão masculina'
se faz presente em estudos antropológicos que abordam
temas relacionados a nossa sociedade, sobretudo, em contextos
urbanos. Por exemplo, na pesquisa de Monteiro (1997) sobre
a revista EleEla o autor verificou que nos primeiros anos
da publicação, de 1969 à 1972, houve
a tentativa de ser um veículo para o casal, ou seja,
sua proposta era pensada possuindo como base uma nova idéia
sobre os relacionamentos entre os sexos, um novo casal, que
pressupunha novos valores para homens e mulheres. O público
alvo, depois se descobriu, não existia. A revista então
transforma-se em uma publicação dedicada ao
público masculino. Algo similar ocorreu no princípio
dos anos noventa com a revista Sui Generis .
A proposta desta publicação
não é ser uma revista para o casal, como a anterior,
mas para homens e mulheres, homo e heterossexuais . Apesar
de parecer muito atual com relação aos debates
que hoje se travam, assim como a EleEla nos anos setenta,
a Sui Generis também não conseguiu achar o seu
público. Assumindo como público os homossexuais
de ambos os sexos. Percebe-se então que uma possível
androginia que talvez fosse sugerida para esta década,
não é a prática. Masculino e feminino
são relidos, mas não são valores abandonados,
mas confirmados de outra maneira já que os significados
estão se transformando. Sendo o contexto urbano um
locus onde a visualidade reina absoluta sobre as outras formas
de percepção, coloquemos então este dado
como foco.
A mudança visual (e também
comportamental) do homem não é apenas um fenômeno
de passarela, um pequeno show do universo da moda, não!
A passarela demonstra de maneira exemplar as diversas faces
e tentativas do homem contemporâneo (Caldas, 1997).
Os homens, a partir da virada da década passada, começam
a manipular muito mais elementos para sua constituição
visual, passam ao mesmo tempo por uma revisão/renovação
pautados nos já citados movimentos feminista e homossexual.
Porém, como se demonstra realmente esta mudança?
Isto é, se as imagens masculinas estão diferentes,
em quê mudaram? Baseada em algumas leituras e em minha
pesquisa procurarei elucidar esta questão.
Existem quatro elementos que demarcam
a franca transformação do modelo masculino:
a) Padrão de beleza - Ele se torna mais magro, jovem
e ambíguo. No entanto, não suplanta outros padrões.
O padrão, na verdade, é plural, isto é,
são padrões, onde o mais vigente é o
anteriormente citado . b) Roupas e acessórios - O homem
passa a ter uma maior quantidade de formas e cores para utilizar,
e consequentemente uma maior variabilidade. Tem assim a chance
de demarcar visualmente com mais riqueza de detalhes, aumentando
o jogo de permutabilidade . c) Ludicidade - Retorno a um elemento
abandonado desde o século XIX do guarda-roupa masculino
(Lipovetsky, 1989). O jogo sem mira em resultados, mas pelo
puro divertimento.
A criatividade volta com a maior variabilidade
de formas, cores e acessórios. O homem, se quiser,
pode ser muito divertido no vestir-se, sem ser caricato .
d) Masculinidades - O homem não necessita seguir apenas
um modelo. Pode passear por várias propostas. Tornando
o homem da década de noventa um ser plural . Estes
quatro elementos, como podemos notar, não são
independentes, são mistos e definem de forma diferente
o que um homem vai vestir. Cada elemento possui pesos variáveis
a cada incursão ao guarda-roupa masculino. Por exemplo:
o terno. O terno é uma vestimenta que necessita ser
repensada pelos criadores, pois, é um conjunto que
é basicamente identificado como roupa de trabalho.
Atualmente o próprio lugar de trabalho e a noção
do que seja trabalho está sendo modificada. Assim,
a roupa a ser usada também passa por um questionamento.
O terno não é mais só roupa de trabalho
. Este exemplo, vem colocar a luz, mais uma possibilidade
de modelo masculino: os homens que nasceram nos anos 70, que
cresceram nos anos 80 e que hoje chegam ao mercado de trabalho
usando bonés, tênis e bermudas. Esses jovens
homens possuem suas referências nitidamente retiradas
de adolescentes: brechós, roupas esportivas (streetwear
e surfwear) e videoclipes .
É certo, que os que podem usar
este tipo de roupa durante toda a semana, optaram por profissões
que lhes dão esta liberdade, mas a possibilidade de
um consultor de administração de empresas ou
informática que passa os seus préstimos via
Internet, estar de boné, tênis e camiseta na
frente do terminal em que conversa com seu cliente, também
é possível. O que isto significa? Significa
que pós-feminismo, pós-movimento homossexual
e com as novas tecnologias surgindo e modificando o cotidiano,
o homem tem mais possibilidades, mais variações
(e porque não liberdades) possíveis de vivenciar
a sua masculinidade, pois as oportunidades e as questões
que encara hoje são também múltiplas.
Sexualidade e moda A sexualidade se tornou um importante assunto
jornalístico e publicitário nos anos noventa.
Em grande parte devido ao surgimento da AIDS na década
de oitenta como doença fatal, sem cura e diretamente
ligada ao sexo , tornando este último, assunto popular.
O que percebo, é que o processo
de discussões sobre sexo e sexualidade que antes eram
abordagens quase que exclusivas de revistas femininas tornou-se
comum, mesmo no horário nobre na televisão.
Isto tomou tal proporção que astros como Madonna
apostam em uma jogada de marketing, expondo sua sexualidade
para quem quisesse , ou seja, a super expondo do assunto sexo.
Para a realização com sucesso desta idéia
e que ajudou-a na constituição da imagem que
se propôs frente ao público, foi a de aparecer
em seus shows e vídeo-clipes vestida com modelos concebidos
especialmente para ela pelo instituidor do unissex (nos anos
oitenta) Jean-Paul Gaultier. Ótima empreitada que retornou
em lucro para ambos: Madonna se tornou mito, talvez o último
do século e Jean-Paul Gaultier definiu a moda dos anos
noventa .
Juntos instituíram que se a
sexualidade não estiver a flor da pele, estará,
ao menos, na superfície da roupa. Esta rápida
incursão que fiz demonstra como o assunto se tornou
banal nesta década é apenas para revelar as
alusões às diversas variantes de sexualidade
que deixaram de ser dados constrangedores para se tornarem
elementos de sedução do leitor. Sendo desta
forma exaustivamente exploradas pela mídia. Como pertence
à lógica da moda, a mídia também
se viu obrigada a criar o novo sobre a sexualidade.Em um dado
momento de minha pesquisa, a atenção foi presa
a um dos últimos elementos de sedução,
utilizados durante esta segunda metade de nossa década:
a sexualização do andrógino. Esta sexualização
do dúbio acaba por constituir os adolescentes em fonte
de inspiração para a maioria das campanhas de
moda e publicitárias sobretudo.
O garoto e a garota com aspecto de
adolescente se tornam também fonte de desejo. Que as
modelos utilizadas em desfiles e fotografias tinham 18, 15,
e mesmo 13 anos já era fato desde a década de
oitenta, mas o aspecto que estas garotas exploravam era sempre
de uma mulher. Elas eram maquiadas e vestidas para aparentarem
mais de 20 anos. Portanto, o desejo, a libido que articulavam
era de um desejo forjado para mulheres, ou seja, para pessoas
do sexo feminino, sexualmente maduras e definidas heterossexualmente.
O tipo masculino também, pois os modelos raramente
tinham menos de 20 anos, aliás a maioria aparentava
estar por volta dos 30 anos, pois, este era o padrão
articulado para homens, mais uma vez o padrão definia
pessoas sexualmente maduras e definidas. A partir desse dois
tipos exemplares de padrão, vigentes até os
anos 80, chego a conclusão de que eles - os padrões
- , até então, eram referentes a definições
claras do que era ser feminino e do que era ser masculino.
A linha divisória entre estes dois pólos era
clara.
Já nos anos 90, as revistas
me mostraram isso, existe uma diferença imensa: a aparência
de um adolescente se tornou desejável justamente porque
ele representa a personificação da indefinição
sexual. A imaturidade sexual dá vazão à
ambiguidade que é um dos mais importantes - ou
pelo menos destacado - desejos manipulados, na década
de noventa, pela mídia e consumido pelo leitor. Se
até os anos 80 a fronteira era clara, hoje ela é
tênue. Continua a existir, mas é difusa, e é
justamente nesta difusão que ela é explorada
simbolicamente pela moda. Ambiguidade Sexualidade dúbia.
Através de pequenos 'nadas' a diferença é
sempre tratada. A oposição dual se mantém,
já que é justamente sobre ela que se estabelece
o foco da discussão.
O sistema da moda necessita do jogo
das diferenças. Pode, portanto, diminuí-las,
mas não abolí-las. Existem peças/elementos
que são exclusivos do feminino e que o uso para o masculino
é sempre proibido: "O masculino está condenado
a desempenhar indefinidamente o masculino" (Lipovetsky,
1989, p. 133). Assim, percebo que mesmo usando elementos da
roupa masculina, as mulheres não deixam de ter algo
feminino, algo que as identifiquem como tal; as roupas masculinas
aumentam o leque de escolhas femininas, sem, no entanto, substituir
as peças ditas femininas - saias, vestidos, bustiês....
Já esta pequena desobediência
é problemática para os homens, pois, além
da utilização de elementos femininos ter começado
há pouco tempo, se comparada às incursões
que as mulheres já faziam ao armário masculino,
os elementos femininos para homens são ainda considerados
transgressões visuais agressivas. A ilusão do
unissex é construída com base nesta idéia
de sexualidade dúbia do ocidental moderno. Baseado
em uma individualização exacerbada, inclusive
da noção de ser feminino e/ou masculino, onde
o que o indivíduo pensa e faz com e sobre o seu corpo
e imagem é uma decisão exclusivamente sua, a
moda e suas propostas são novidades que proporcionam
ao 'eu' uma pequena aventura.
Agora o que não se deve deixar
de lado é que este neonarcisismo possui um detalhe
constitutivo que é o que torna o unissex uma ilusão:
o caráter diferenciado de se abordar corpo e imagem
que existe entre homens e mulheres. O homem concebe o corpo
e sua imagem de forma sintética: " O neonarcisismo
masculino investe principalmente no corpo como realidade indiferençada,
imagem global a ser mantida em boa saúde e em boa forma;
pouco interesse pelo detalhe..."(Lipovetsky, 1989, p.
136) Sua imagem está ligada a uma manutenção
da juventude, do dinamismo, da beleza de todo o seu corpo
e não de partes.
Já a mulher se concebe de maneira
fragmentada, percebe-se aos pedaços: "Investe-se
em todas as regiões do corpo; o narcisismo analítico
detalha o rosto e o corpo em elementos distintos, cada um
deles afetado por um valor mais ou menos positivo: nariz,
olhos, lábios, pele, ombros, seios, quadris, nádegas,
pernas; são objetos de uma auto-apreciação,
de uma autovigilância que acarretam 'práticas
de si' específicas destinadas a valorizar e a corrigir
tal ou tal parte de seu físico" (Lipovetsky, 1989,
p. 137) Os padrões de beleza femininos possuem valores
de observação escrupulosos, que desencadeiam
um inevitável processo de comparação
com as outras mulheres.
Tornando a concepção
de beleza feminina, sobre seu corpo algo extremamente analítico.
A busca da androginia, evidentemente, minimiza a diferença,
porém, não a anula. O que acaba por ocorrer
são que as mulheres possuem uma gama de escolhas radicalmente
maior que a dos homens e estes aumentam timidamente a ludicidade
de suas composições visuais. A homogeneização
entre os signos masculinos e femininos, portanto, só
existe em um olhar desatento, pois, a diferença existe.
Existem, 'pequenos nadas' que nos fornecem
a diferença. "Tal é o espantoso destino
da igualdade, que nos consagra não à similitude,
mas à indeterminação, à justaposição
íntima dos contrários, ao questionamento indeterminável
da identidade sexual" (Lipovetsky, 1989, p. 140) Percebo
o porquê da necessidade da publicidade de usar adolescentes
para veicular um padrão andrógino de beleza
que rege os anos 90: eles são mais francamente indefinidos
e ambíguos. A indeterminação de suas
identidades sexuais vem de encontro com o processo da moda:
a diminuição dos extremos não tem como
interesse a unificação das aparências,
mas sim a criação de um leque abrangente de
escolhas.
Sexualidade e mídia Para colocar
de maneira mais clara começarei analisando um dado
secundário de minha pesquisa, porém, que ilustra
muito bem a atual situação: o filme Kids. De
início, Kids surpreendeu porque teve um êxito
de crítica e público que não se esperava
. A história retrata como são os adolescentes
- no caso pertencentes a classe média baixa - dos grandes
centros urbanos - Manhattan, Nova Iorque. É notória
a falta de adultos no filme, eles quase não aparecem
e quando o fazem, é de forma rápida e, nestas
poucas cenas, já é clara a latente sexualização
que os adolescentes fazem do mundo ao redor deles . O assunto
sexo, com relação aos adolescentes, é
tratado, ainda que de forma problemática, de maneira
direta e sem muitos psicologismos, dando voz ao próprio
adolescente que coloca claramente várias variáveis
na trajetória do filme .
Este mundo adolescente seduz o adulto,
pelo menos o aspecto visual do primeiro anda fascinando o
segundo. Isto se confirma quando a atriz protagonista, se
torna na mesma estação na qual o filme foi lançado,
a modelo da marca que mais estava sendo copiada naquele momento:
a Miu-miu . Uma adolescente que no único filme em que
havia atuado faz uma personagem que passa quase o tempo inteiro
da projeção drogada, vagando a procura do único
garoto com o qual manteve relações sexuais e
lhe transmitiu AIDS. Tudo isso, no entanto, não 'queima'
a imagem desta atriz, ao contrário, ela se torna mais
desejável, mais vendável. Porque as pessoas
que vão consumir Miu-miu se sentem ou atraídas
ou identificadas pelo visual que ela ostenta durante suas
andanças pelos clubs, festas e ruas de Manhattan, enquanto
procura o garoto que a infectou .
Seu papel representa muitas coisas,
mas entre elas, uma das mais fortes facetas que nos é
mostrada, e a mais interessante para a minha discussão,
é a constante da imaturidade sexual, a personagem protagonista,
apesar de vivenciar tudo o que se passa na tela, continua
possuindo menos de 15 anos de idade. O imaginário da
ambiguidade foi notado no começo dos anos 90 pela
fotógrafa Bettina Rheims. Ex-modelo que se lança
como fotógrafa e acerta em uma, e talvez a mais forte,
tendência desta década: a androginia. Bettina
faz uma exposição nos Estados Unidos em 1989
intitulada: "Modern Lovers" onde retrata muito bem
a androginia de jovens comuns (até então nenhum
deles era modelo profissional) que vagavam pelas ruas dos
grandes centros de moda (Nova Iorque, Paris e Londres). Ela
fotografa um padrão de elegância até então
restrito a estes jovens . Colocando esta exposição
como estopim, analiso, agora a campanha da marca Calvin Klein.
Este é um caso exemplar, diretamente ligado ao objeto
de minha pesquisa.
A Calvin Klein institui Kate Moss
como modelo carro-chefe de suas coleções, e
modelo exclusiva para campanha em três, dos seus cinco
perfumes no mercado. Ela é a modelo que lançou
a imagem publicitária de One, um perfume que aposta
não só no seu ar adolescente, mas na ambiguidade
comum aos 'quase-adultos', ambiguidade esta que Kate
Moss tão bem representa: quase um garoto, quase uma
mulher, imatura (e porque não indecisa?) sexualmente
sobre todos os aspectos . No Brasil, posso citar, como exemplo,
as propagandas da marca jovem Triton. Esta etiqueta explorou
não só o ar infantil e dúbio do adolescente,
mas também joga com o ar 'junkie' para adolescentes.
Suas modelos parecem sempre estar saindo de uma 'balada' e
apresentam um aspecto de cansaço, fim de noite... rostos
magros, pálidos, maquiagem que simula um rosto suado,
olhos quase borrados, cabelos desarrumados, poses sem glamour,
soltas demais, 'cansadas'... O aspecto delas explora mais
a atitude, o estilo, do que uma busca à beleza, ou
ao glamour. A impressão que se tem é que são
fotos 'flagrante' , que não existe muito truque para
a sua produção . Não só a Triton
explora este tipo de olhar publicitário sobre o adolescente,
mas ela é o caso exemplar, pois foi a primeira no Brasil
a sintonizar com a vanguarda mundial e apostar neste tipo
de linguagem publicitária dentro das revistas de moda
no país .
O importante é notar que estas
imagens fazem parte da mesma tendência de fotografia
de moda que circula nos principais pontos de produção
de moda internacional e que, no entanto, são muito
bem recebidas e consumidas pelos leitores das revistas nacionais
de moda. São estes textos visuais estilizados, os responsáveis
pela colocação no mundo, destas propostas imagéticas
e novos padrões de elegância que informam o leitor-consumidor
da revista de moda. O divertido é que a idéia
de um fim-de-século sem esperanças não
surge apenas na segunda metade dos anos 90. Ela não
é inédita, os estilistas japoneses já
haviam vislumbrado isto nos anos 80. Esta proposta retorna
agora com força e acredito que eles - os estilistas
japoneses - não imaginavam que seriam quase-crianças
que envergariam suas idéias... e mais, misturando-as
a este pensamento de que existe um ar dúbio que circunda
sua sexualidade. O que estes adolescentes (tanto os que estão
nos filmes que cito, quanto os que são parte das campanhas
publicitárias, bem como os adolescentes reais que inspiram
todo este movimento da moda) fazem não é só
resgate da proposta dos estilistas japoneses, mas também
a mistura das idéias já 'faladas' com indumentária
.
Não só mistura, mas procura.
Procura por um caminho para a virada do século "...
o que usar agora que tudo já foi usado?" (busca
da diferenciação); "Será que tudo
já foi dito e pensado e não sobrou nada para
mim?" (busca da originalidade, da ostentação
do que lhe é próprio). Nosso grupo nativo já
pensou nas definições sexuais, nos padrões
de idade, nas identidades e, no entanto, como bom adolescente,
ele não se sente encaixar em nenhuma das categorias
postas e principia então um jogo lúdico, onde
ele - o adolescente - brinca com as propostas já colocadas
"... pego tudo o que já criaram e crio mais, crio
outro, tenho informação suficiente para produzir
mais informação!", isto é utilização
de todo o dicionário de estilos já usados, inventados,
misturando-os e recriado-os para a construção
de uma nova linguagem, uma linguagem própria. Os adolescentes
se tornam influência para os adultos se vestirem e para
os criadores. Viram um segmento de consumo forte.
É certo, que a partir dos anos
60 os jovens já não se vestem como seus pais,
se vestiam ao estilo mod e a segmentação de
idades, pelo menos visualmente, já era nítida.
Porém, o que ocorre hoje é que pessoas com mais
de 20 anos evocam o ar de adolescentes de 13 anos, manipulam
uma libido que é um estilo misto entre "Lolita"
e "Christiane F.". Vão as lojas de roupas
jovens e consomem o que é feito, num primeiro momento,
para o segmento dos adolescentes.
Fazem isso porquê este segmento
tem estilo e atitude que agora - parece jogo de palavras mas
não o é - amadureceu simbolicamente. O jogo
de sedução, dentro do mundo da moda, nesta segunda
metade da década, aponta para vários caminhos.
A moda coloca elementos que antes 'deveriam' estar escondidos;
agora eles surgem a luz e quase tudo pode ser desejável:
do mais cotidiano ao mais exótico ou ao mais proibido.
E os homens e sua condição mais fluída
devem se inserir e rearticular suas possibilidades de estar
dentro deste universo cultural . Apontamentos finais Se pensar
em gênero é pensar em um discurso sobre a diferença
e sobre um contexto histórico que nos coloca (homens
e mulheres) em um constante repensar (sobre condições
e lugares a ocupar ou assumir), percebo que a antropologia
possui excelentes instrumentais para tratar destas questões.
Pensar sobre a diferença é
o enfoque central da disciplina. Perceber a linguagem como
dado construtivo de uma realidade, e tentar compreender através
de uma desconstrução, é movimento importante
da pesquisa antropológica. No entanto, o que me faz
fascinar, é poder perceber como em nosso cotidiano
as linguagens que manipulamos estão todas impregnadas
com discursos. E que estes últimos tornam-se importantes
pontos de partida para percebemos as diferentes formas de
articular as questões presentes. Por exemplo, se notamos
e discutimos sobre um momento de repensar do homem, isto não
se dá isoladamente, apenas no meio acadêmico,
isto se inscreve no corpo, na roupa, nos desejos que este
homem que questionamos vivencia. E é justamente este
vivenciar e nestas inscrições que buscamos pistas
do como compreender melhor estes elementos internalizados
de nossa própria sociedade, do nosso próprio
grupo nativo.
Os homens mudam suas roupas, seu modo
de trabalhar, sua concepção de família,
repensam lugares socialmente alternativos, multiplicam suas
possibilidades sexuais de manipular e vivenciar o desejo,
etc. tudo isto dentro de um contexto histórico de pós-movimento
feminista e homossexual. As consequências deste
lugar (local e temporal) em que nos encontramos estão
sendo solucionadas pelas pessoas que vivem hoje. E é
tarefa do antropólogo ficar atento a estas modificações,
perceber como elas discorrem em diferentes discursos e principalmente
notar o sentido, o significados destas mudanças qualitativas
que se dão ao nosso redor. No meu caso, ficar atenta
ao discursos das revistas de moda que nos informam, não
apenas, sobre roupas, ornamentos e gestuais, mas o que estes
elementos significam dentro da fala da moda. Utilizando-me
de instrumentais da antropologia, na tentativa de tradução,
do que o homem inscreve sobre o corpo à respeito das
questões que enfrenta em seu dia-a-dia.
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Filme citado:
Kids (1996) Miramax Roteiro: Harmony
Korine Produção: Cary Woods Direção:
Larry Clark
Documentário citado:
O mundo da moda (1994)
BBC London
Roteiro, produção e direção:
Marion Hume