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Maria
Claudia Bonadio
Resumo:
Este
artigo tem por objetivo refletir como moda e publicidade constituem
uma construção de gênero, conforme a define Teresa De Lauretis:
"A construção de gênero ocorre através de várias tecnologias
(como a mídia) e discursos institucionais com o poder de controlar
o campo de significado social e assim, promover, implantar
representações de gênero" . Sendo a moda uma instituição
como a caracteriza Gilles Lipovetsky, e a propaganda, um meio
de manipulação da comunicação simbólica é possível afirmar
que a mesma tem o poder de controlar o que De Lauretis definiu
acima como "campo de significado social". Para ilustrar
o enunciado, delimitei um campo de análise específico, os
anúncios do Mappin Stores publicados no jornal O Estado de
S. Paulo entre 1919-1929. O trinômio moda, grande magazine
e publicidade pode ser considerado difusor de um discurso
comum a respeito da mulher, "vendendo" a idéia daquilo
que Nancy Cott definiu como "mulher moderna".
Introdução:
Neste
estudo procurarei ilustrar, a (re)construção da imagem da
"mulher moderna" (1) paulistana
pertencente à elite, publico alvo da loja de departamentos,
a "cliente preferencial da casa", como afirmam Peirão
e Alvim: "A preferência do Mappin pela consumidora do
sexo feminino ficava patente (...), na configuração com que
se apresentava a loja por ocasião de sua inauguração. Dos
11 departamentos em que se dividia inicialmente o estabelecimento
8 eram dedicados a mulher, direta ou indiretamente".
(2)
Instalado
no coração comercial da cidade - o "Triângulo" (3)
- desde novembro de 1913 o Mappin Stores divulgava "reclames"
diariamente no Jornal O Estado de S. Paulo, "o jornal
da elite paulistana e portanto lido por um público que era
exatamente o do Mappin" (4).
É
possível observar logo no primeiro anúncio da loja (publicado
na primeira página d'O Estado, no dia de sua inauguração-29/11/1913)
o direcionamento do grande magazine para o público feminino,
seu empenho em inserir-se na categoria que Alvim e Peirão
chamaram de Palais de la Femme. O anúncio trazia a imagem
de uma mulher - "uma figura em Art-nouveau, com longa
túnica solta e a cintura ligeiramente marcada. As formas soltas
do modelo no anúncio, insinuando o contorno do corpo, marcavam
a opção da loja pela modernidade: era a nova mulher que surgia
na Europa, enfim libertada do jugo dos espartilhos, que o
Mappin privilegiava (...)". (5)
Em
1919, com a inauguração do novo prédio (6),
a loja passa a anunciar e esporadicamente também nos jornais
Folha da Manhã, A Fanfulla, e Al Madraçat entre outros, atendendo,
nos dois últimos casos também à população de imigrantes. Era
freqüente que ocupasse ainda as páginas das principais revistas
da época, em especial as dirigidas ao público feminino como
Cigarra, Fon-Fon, Revista Feminina e Vida Moderna. Outro veículo
importante e freqüente das propagandas do Mappin eram os programas
do Teatro São Pedro, reforçando a associação do nome Mappin
aos eventos artísticos culturais da cidade.
Através
dos anúncios do Mappin, será possível notar como a moda, juntamente
com a publicidade, constituiu o discurso de desconstrução
de gênero que, como coloca De Lauretis, proporciona uma des(re)construção
da mulher da elite paulistana. A moda redefinirá seus contornos
decompondo o X formado pelas roupas armadas com anquinhas
ou crinolinas e moldadas por espartilhos que imputavam à mulher
a imagem de "mãe-esposa", e que pela própria forma
era completamente antagônica ao H formado pelo traje masculino,
aproximando as formas femininas das masculinas através da
decomposição do X em duas retas paralelas, dando forma a mulher
que ficou conhecida como "garçonne". (7)
A
publicidade por sua vez desconstruirá a mulher mãe-esposa,
para criar a consumidora. Antes associada ao ócio do lar,
ela agora ganha uma imagem dinâmica, associada à cidade através
do comércio. É a mulher quem vai as compras e é a ela que
a publicidade se dirige. A indústria publicitária coloca a
mulher mais perto da modernidade, anuncia os novos modelos
de roupas, móveis e eletrodomésticos indispensáveis à mulher
moderna, dinâmica e sociável. Antes restrita ao lar, a consumidora
ainda tem as tarefas de mãe e esposa, mas de forma "reformada".
A feminilidade é portanto desconstruída, para ser reconstruída
com nova embalagem. Na propaganda do Mappin será possível
observar uma união dessas duas releituras (feitas respectivamente,
a partir da moda e da publicidade) da feminilidade em voga
nos aos 20.
1.
Moda e representação: a velha mulher de roupa nova
A
moda, segundo Gilles Lipovetsky, é um "instituição excepcional
(...), uma realidade sócio-histórica característica do Ocidente
e da própria modernidade" (8), apoiada
basicamente em três atitudes: a negação do passado imemorial,
a febre das novidades e a celebração do presente social, o
vestuário é o domínio arquetípico desta instituição. A esfera
do parecer, local da moda por excelência, evidenciaria umas
das funções sociais desta "instituição", a distinção
de gênero.
Para
analisar como a moda, no período aqui enfocado, pode ser considerada
uma tecnologia de gênero no sentido em que De Lauretis a define,
é preciso que voltemos os olhos para algumas transformações
ocorridas na produção de moda no século XIX. Até o início
da segunda metade do século, "o alfaiate, a costureira,
a comerciante de modas, jamais deixaram de trabalhar em ligação
direta com o cliente", conforme conta Lipovetsky, Era
senso comum que a cliente fizesse valer seu gosto e suas preferências
orientando o trabalho dos profissionais de moda. (9)
Em
1858, Charles-Fréderic Worth, já costureiro renomado, cria
a primeira Maison e apresenta, também pela primeira vez, modelos
inéditos, preparados com antecedência e apresentados aos clientes
em salões. Após a apresentação, os clientes poderiam escolher
os modelos que lhes agradassem, a fim de que a Maison executasse
o modelo escolhido na medida do cliente. Tais demonstrações,
aconteciam a cada seis meses, levando a público as criações
para o Outono-Inverno e Primavera-Verão, por modelos vivos,
mulheres jovens na ocasião denominadas "sósias".
Era o início da Alta Costura, das Maisons, do calendário de
moda e dos desfiles apresentados por jovens mulheres. (10)
A
inovação que mais nos interessa aqui é o novo status do costureiro.
De mero empregado, prestador de serviço, ele passa à condição
de criador ou, como prefere Lipovetsky, "de artista soberano",
com plenos poderes para legislar livremente em matéria de
gosto e elegância femininos. "A mulher tornou-se uma
simples consumidora". (11) Nessa frase,
Lipovetsky, me confirmou coisa de que eu já suspeitava: a
contar de então, a moda no século XIX passa a ser sinônimo
de feminilidade
Se
a mulher passa a dispor de opções de vestimenta que são fruto
do gosto do criador, é preciso pensar que mais do que nunca
o vestuário é uma fabricação, um produto que carrega consigo
significações, que constróem e reconstroem a cada estação,
de forma mais ou menos radical, o corpo da mulher. Desta forma
é possível afirmar que a imagem feminina é uma construção,
uma representação do discurso vigente na sociedade, que o
costureiro pode quebrar, assimilar, ou representar.
Vejamos
dois exemplos importantes, Worth e Chanel. O primeiro ganhou
destaque no auge da Era Vitoriana. Seus modelos reproduziam
exatamente a moral vigente na época, com vestidos que escondiam
o corpo através das golas altas, das mangas, das saias compridas
e armadas ao mesmo tempo em que ainda mais marcavam o papel
social da mulher, ressaltando ancas e seios, em meio aos quilos
de seda, fitas, e babados. A mulher mãe-esposa era o resultado
final dessa representação. E não somente: a mulher era também
inacessível, privada da vida social e especialmente do contato
físico através da vestimenta. Worth fez sucesso porque soube
renovar em cima do mesmo tema, mudando cores, tecidos e rendas
a cada estação. Criando o ciclo da Alta Costura, ele inovou
onde a renovação parecia impossível. Suas criações no entanto
reafirmavam a moral vigente e seus vestidos eram criados em
cima dessas significações, nos modelos em forma de X, opondo
visivelmente a mulher ao homem, que por estes tempos já usava
um traje sóbrio, prático e funcional, o "duas peças"
que lembrava um H (12).
No
contexto da Primeira Guerra Mundial, a estilista Coco Chanel
aproximaria o traje feminino do masculino, substituindo o
X por um duas retas paralelas, lembrando o H ainda em voga,
da silhueta masculina, como pude notar em minha monografia
de gradução (13). Tal mudança pode ser justificada
pela necessidade imposta de simplificação dos trajes, a partir
de 1914, como conseqüência da necessidade da economia de tecidos
e de maior praticidade nas roupas, pois, com os homens no
front de batalha, a mulher precisava assumir as tarefas masculinas.
(14) Coco Chanel apropriou-se das fardas
masculinas e deu-lhes um corte mais delicado: substituiu as
calças pelas saias e criou o tailleur para o dia e o vestido
de corte reto e tecidos leves para noite, evidenciando a silhueta
e ressaltando a associação beleza e corpo. (15)
Chanel
introduziu ainda o uso dos cabelos curtos, o que, acrescido
aos trajes de corte reto e da silhueta longilínea, tornaram-na
a grande expressão da moda à la garçonne, que desconstruía
a mãe-esposa, substituindo-a pela garçonne, uma mulher sociável,
moderna e ativa e não necessariamente mãe-esposa. Era preciso
criar uma "nova mulher" no momento em que esses
papéis não podiam mais ser levados á risca, até por falta
de atores masculinos.
Assim
seria possível ponderar que se conforme ressalta De Lauretis,
"a construção de gênero é tanto o produto quanto o processo
de sua representação " (16), moda e
a publicidade seriam parte criadora do "sistema de gênero",
um "sistema de significações que relaciona sexo a conteúdos
culturais de acordo com valores e hierarquias sociais"
(17). Moda e Publicidade seriam ainda criadores
do que a mesma autora, com base no pensamento de Althusser
denomina, "relações imaginárias", constituindo o
gênero através de suas criações, representações e significações.
(18)
Levando
em consideração que, para De Lauretis, "o gênero tem
a função que o define de constituir indivíduos concretos em
homens e mulheres" (19) e, tal como
afirmam diversos autores, a criação de moda é pensada bipolarmente,
as peças do vestuário são classificadas antes mesmo de sua
confecção como masculinas ou femininas (calças e camisas para
os homens/ blusas e saias para as mulheres), seria possível
afirmar que a moda se caracteriza como ideologia de gênero,
constituindo vestuários em peças masculinas e femininas.
No
entanto, tal bipolaridade se restringiria ao produto da moda,
isto é, o vestuário. Através de uma análise mais aprofundada
é possível afirmar que moda, enquanto conceito, é quase sinônimo
de feminilidade. Exemplo disso são as palavras de Lipovetsky,
que ao caracterizar a Alta Costura, em determinado momento
exemplifica: "Ao costureiro propõe, a mulher (grifo nosso),
dispõe", para dar a penas um exemplo de como os teóricos
da moda referem-se a relação criador / consumidor (20).
O
exemplo acima não é fato isolado, posto que no período aqui
referido é sempre a mulher que deve visitar a loja de departamentos
para tomar conhecimento dos novos modelos recém chegados de
Paris. A cada semestre ela é chamada a conhecer as mudanças
no traje. É ela também que deve ver as novidades em sedas,
luvas e perfumaria. Os anúncios dedicados aos homens destacam
sempre a qualidade e não a novidade.
Ocorre
aqui oque Teresa De Lauretis chama de interpelação , ou o
"processo pelo qual uma representação social é aceita
e absorvida por uma pessoa, como sua própria representação,
e assim se torna real para ela, embora seja de fato imaginária."
(21)
Um
outro exemplo (mais próximo do fornecido por De Lauretis)
seria a própria classificação do vestuário. O antagonismo
vigente na década de 20 entre saias e calças, a idéia do traje
bifurcado para homens e saias para mulher não são escolhas,
mas representações. Assim seria possível dizer que não é a
mulher que escolhe a saia, mas a "saia" que escolhe
a mulher. Saia e mulher seriam o encontro do significante
com o significado, o mesmo ocorrendo na relação calça/homens.
Se
as mulheres na década de 20 estavam se apropriando de elementos
do visual e do vestuário masculino, isto acaba por alterar
a relação significante/significado. Transformam-se também
as relações homem/mulher, borrando as fronteiras de gênero
e esfumaçando os contorno. Gera-se assim uma nova imagem de
feminilidade.
A
moda pode assim através de sua força motriz (negar passado,
celebrar momento e dignificar o novo), criar, apresentar como
"real" a imagem de uma nova mulher, a mulher moderna
que as roupas contornam. É possível pensar que a libertação
da mulher do jugo dos espartilhos, por exemplo, foi menos
um avanço em direção ao feminismo do que uma estratégia da
moda. (22)
2.
Mulher-mãe e dona de casa, agora em nova embalagem
Notamos
acima como a moda ajudou a (re)criar a representação de feminilidade
da década de 20. Agora veremos o papel da publicidade, na
construção de gênero. Para tanto tomaremos como base teórica
as idéias de Nancy Cott e como corpus de trabalho as propagandas
do Mappin.
A
imagem do consumidor criada pela Publicidade do Mappin é uma
figura feminina, uma "mulher moderna" e culta que
adora passear e fazer compras, sem abandonar as responsabilidades
do lar. Para enfatizar a imagem mencionada acima, o Mappin
investe muito mais nos anúncios de belos vestidos para a noite
do que em blusinhas para o dia a dia. A mulher "moderna"
é sedutora. Belas lingeries, tal como perfumes e produtos
de beleza são destaques nos anúncios. Mas antes de tudo a
mulher é pensada como consumidora.
E
o que significa ser consumidora?
O
consumo, segundo Nancy F. Cott seria antes de mais nada a
uma característica da "mulher moderna"; é interessante
como a autora citada começa a caracterizar a relação mulher/publicidade:
"Os publicitários e os especialistas em técnicas de promoção
referiam-se habitualmente ao consumidor como "ela"."
(23) Consumidor torna-se sinônimo de mulher.
Percebendo
que a confluência de uma série de fatores (mulher/cidade/grande
magazine) potencializavam o poder de consumo da mulher, os
publicitários aproveitaram para criar um discursos de "poder"
imaginário, embalando - coloca Cott - a individualidade feminina
e a modernidade sob forma de mercadoria. As antigas necessidades
femininas são reunidas em pacotes modernos. (24)
É
importante notar que, à época, novas técnicas gráficas e fotográficas
possibilitaram à publicidade utilizar maiores recursos criativos
e tornar mais atrativos os anúncios. O essencial, como observa
Cott, é que as mensagens publicitárias endereçadas à mulher
"vendiam não apenas mostruários de produtos, mas também
imagens delas próprias" A "mulher moderna"
era retratada como energética e sociável. (25)
É
exatamente nesta última imagem que o Mappin mais investirá.
A sua cliente é por excelência a mulher que passeia, se arruma,
sai de casa para um simples passeio no Triângulo, com direito
a parada num salão de chá, que se enfeita com as melhores
criações parisienses para as noites de temporada do "Lyrico".
O grande destaque era de fato o vestuário feminino, primeiramente
o de passeio e festa, roupas brancas (roupa de baixo), elegantes
trajes para dormir, e lingeries. Em seguido a esses produtos
vinham as roupas para crianças e mocinhas, serviçais, homens,
móveis, produtos de toucador.
Nas
propagandas diárias e nos catálogos os vestidos de soireé
aparecem em primeiro plano, há muito mais anúncios diários
de vestidos e acessórios do que de geladeiras (estas aliás
ocupam literalmente as últimas páginas dos catálogos!). A
seção de "utensílios domésticos" só seria inaugurada
depois de nove anos de funcionamento da loja, em 1922. Outra
coisa que caracteriza a mulher sociável são os anúncios de
móveis de áreas de recepção como tapetes, cortinas e abajures,
que também ganham espaço sobre móveis para espaços mais íntimos
da casa, como o quarto do casal ou das crianças.
Na
visão de Nancy Cott, esta era uma forma amenizada de apresentar
(refazer, reorganizar, acrescentaria eu) através da publicidade,
"o estatuto doméstico tradicional das mulheres e os serviços
heterossexuais, passavam a ser definidos - e mesmo agressivamente
comercializados - em termos de escolha. Os anúncios estavam
orientados para persuadir que o ato de comprar constituía
"um campo de escolha de controlo no qual as mulheres
podiam exercer a sua racionalidade e manifestar seus valores
pessoais". (26)
No
entanto o que temos, em verdade, é uma nova forma de discurso,
uma reformulação de ideologia da mulher e de gênero; a mulher-mãe
ganhara também o status de consumidora.
A
transformação não foi imediata. Por muitos anos a imagem da
mulher como criança adulta era a imperante, ainda que não
nas palavras, mas claramente nos desenhos. Em meados da década
de 20 a mulher vai ganhando novos traços; ainda não é sensual,
mas não mais carrega consigo ares infantis. Seu tom agora
é blasé. A sensualidade só chega na década de 30. Em 1927,
uma sutil androginia impera, os cabelos são curtos, os pijamas
aparecem, mas, ainda que as feições não sejam sensuais, as
roupas o são e muito.
Outra
característica importante dessa consumidora é a agilidade
e o gosto pela novidade. Assim o Mappin explora mês a mês
a venda de artigos diferentes: janeiro é mês dos impermeáveis
e dos chapéus (denunciando o clima instável da cidade), fevereiro
o destaque é para as fantasias de carnaval, março é mês da
liquidação semestral, abril das roupas pretas adequadas à
Semana Santa e da promoção de tapetes, e assim por diante
(27). O Mappin não foge a regra que, Nancy
Cott bem observa, era imperante na estratégia publicitária:
a "criação de necessidades". (28)
É
preciso ressaltar que moda e publicidade são apenas dois exemplos
de posições, dentro da existência social que - como enfatiza
De Lauretis - atribuem uma posição à mulher dentro do sistema
sexo-gênero.
4.Uma
loja, dois clientes...
Enquanto
a mulher das elites paulistana pára diante da vitrine, visita
o salão de chá e passeia por todas as seções, o homem vai
direto ao que lhe interessa, a seção de alfaiataria; ali o
Mappin Stores oferece aos seus clientes "o melhor sortimento
de casemiras inglezas do Brazil - e - garante perfeição do
corte e acabamento", tudo isso com o preço "mais
módico possível", diz o anúncio de 1919.
Se
as principais peças do vestuário feminino mudam a cada estação,
o homem que busca um traje para a estação Lírica deve se preocupar
apenas em inovar o colarinho, a camisa e as meias. "Uma
casaca pode ser impecável mas a distinção do seu aspecto de
pende de uma camisa correcta e de um colarinho elegante. Nós
temos os últimos modelos de colarinho "Ajax" para
casaca." A loja anuncia ainda que tem um sortimento de
camisas de peito liso ou com pregas, pelo preço excepcional
de 30$ cada, além de outros produtos periféricos, mostrados
nos anúncios sempre com o preço ao lado. No final o distinto
senhor é informado que caso necessite de um casaca, o Mappin
oferece os "últimos figurinos" a preços os mais
baratos possíveis. Exceto o colarinho e a casaca, nenhum dos
outros 3 produtos do reclame são associados à novidade, mas
todos trazem o preço.
Outra
coisa que chama a atenção é que, com exceção de peças íntimas
como o "soutien gorge", as roupas femininas aparecem
sempre sobre o corpo de um manequim. Com os homens essa regra
nem sempre era seguida: não são poucas as vezes que peças
do vestuário masculino parecem como que expostas num balcão,
como podemos observar no anúncio de camisas de 1918. Os preços
voltam a aparecer, o cliente é informado que a loja possui
"um completo sortimento de roupas brancas importadas
dos melhores fabricantes francezes". No mesmo anúncio,
é possível saber que a seção de alfaiataria só trabalha com
casemiras de pura lã inglesa, e que as encomendas neste setor
são executadas com rapidez e perfeição. Além disso, as camisas
mostradas no anúncio são feitas "com tecidos de optima
qualidade" e "cortadas por um processo que permite
a maior liberdade dos movimentos offerecendo portanto o máximo
conforto". Aos clientes algumas vezes são reservados
anúncios discretos, apresentando apenas um peça, como uma
raquete de tênis, ou uma gravata. A sobriedade está presente
até na configuração dos anúncios.
Economia
e distinção aparecem como os únicos objetivos em comum de
homens e mulheres que compram no Mappin. É o que a propaganda
faz crer, pois enquanto os homens buscam qualidade, praticidade
e rapidez, a mulher tem tempo de parar em frente à vitrine
e admirar todo tipo de artigo, buscando sempre a novidade
e a moda, como é possível notar no anúncio de 1919, informando
sobre uma grande exposição de inverno; essa oferece uma série
de novas mercadorias que vão de "um fino sortimento de
vestidos modelos de Pariz - grande variedades de elegantes
chapéus em veludo de cores - novo e explendido sortimento
de pelles legitimas - graciosos manteaux e roupas para crianças
- incomparável "stock" de tecidos de lãn - un rico
sortimento de veludo chiffon em mais de vinte côres modernas
-peignoirs e roupas de baixo a valores especiais - uma variedade
de novos modelos em blusas - e muitas outras interessantes
novidades".
Qualidade
não é prioridade para a mulher, que está mais interessada
nos modelos recentes, na elegância e na moda chegados de Paris
e expostos na sobreloja que, por ocasião da exposição, se
transforma no recanto chic da loja, "um verdadeiro ambiente
pariziense", onde poderiam ser encontrados vestidos com
lantejoulas e lamês - "usados cada vez com maior freqüência
informa o Mappin".
As
mulheres também são convidadas com freqüência a passar uma
tarde agradável no salão de chá, ou trazer os filhos pra brincar
na gruta polar (em tempos de Natal), fazer compras para seus
filhos e cuidar da aparência no salão de beleza, visitar a
liquidação, conhecer o novo sortimento de luvas, móveis ou
cortinas. Os eletrodomésticos raramente são anunciados e artigos
como fogões e geladeiras estão quase restritos aos catálogos,
pois a mulher que vai a cidade prefere ver "lindas toalettes
de lingerie que em todos os seus detalhes mostram oque vai
ser o chic do verão deste ano".
Podemos
concluir que a mulher construída pelas propagandas do Mappin
é afoita por novidades e adora conhecer novas vitrines, ir
ás compras e consumir seja lá oque for. Ela é a consumidora
por excelência de que fala Nancy Cott. Num momento em que
os homens eram ocupados com o trabalho, com a administração
de seus negócios, as mulheres transformam-se em consumidoras
em potencial, especialmente nas grandes cidades, onde era
necessário oferecer a mulher uma nova "função",
um novo atributo, uma nova imagem. A mulher ociosa, corpulenta
e entregue exclusivamente às tarefas do lar não combinava
com a cidade de São Paulo, símbolo da modernidade brasileira.
A
Revolução Tecnológica, a passagem do século, o pós-Primeira-Guerra,
junto aos arranha céus que não paravam de crescer, celebravam
a modernidade - coloca Nicolau Sevcenko (29)
para esse autor, moderno, naquele contexto, era nada menos
que o novo absoluto, o futuro, a ação, o movimento. Numa espécie
de complemento às idéias do autor, é possível afirmar que
a mulher, com suas roupas e seus espaços criados pelo consumo,
era um símbolo emergente dessa modernidade, ainda que isso
fosse mais uma representação (no sentido teatral) do que realidade,
tal como a própria modernidade paulistana, na qual arranha
céus conviviam com a Mata Atlântica ao fundo. A mulher não
escapava à regra, vestindo o figurino moderno, mais cuidando
da família e do marido.
5.
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Notas
(1)
A mulher americana dos anos vinte, avançada como as tecnologias,
os produtos e os meio de comunicação, explica Nancy Cott,
tal modelo predominante durante a década de 20, entraria em
decadência nos anos 30, especialmente durante a Depressão
e a Grande Guerra. Cf : COTT, Nancy F. . "A mulher moderna:
O estilo americano dos anos vinte". in: História
das mulheres no Ocidente. O século XX. Porto/ São Paulo.
Edições Afrontamentos/ EBRADIL, 1996. p. 95.
(2)
ALVIM, Zuleika / PEIRÃO, Solange. Op. cit. p. 40.
(3)
O "Triângulo" era formado pelas ruas São Bento,
Direita e 15 de Novembro, tinha, o ápice truncado pelo largo
do Rosário. Cf. OCTÁVIO, Laura Rodrigo. Elos de uma corrente,
seguidos de outros elos. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1994. p. 237.
(4)
O Mappin, ou Mappin Stores (Brazil) Ltd. como se chamava na
época, foi inaugurado em São Paulo no dia 19 de novembro de
1913; ficaria conhecido popularmente pelo nome de Casa Mappin.
Em 1939, passaria a se chamar Casa Anglo- Brasileira, retornando
ao nome original em 1950. Cf: ALVIM, Zuleika / PEIRÃO, Solange.
Mappin. Setenta Anos. São Paulo: Ex Librix. 1985.
P. 66.
(5)
"Conceito importado da Europa, como o próprio conceito
de loja de departamentos." Cf. ALVIM\PEIRÃO, op.
cit. p.40.
(6)
O Mappin muda de endereço, mas continua no Triângulo; antes
instalado na rua Direita, a loja agora está numa extremidade
do polígono, a junção das ruas São Bento e Direita, em frente
à Praça do Patriarca.
(7)
SOUZA, Gilda de Mello: O Espírito das Roupas , a moda
no século XIX. São Paulo: Comp. das Letras, 1987. p.
59.
(8)
Por modernidade o autor entende: o período iniciado no final
da Idade Média, quando nasce a "ordem própria da moda,
a moda como sistema, com suas metamorfoses incessantes, seus
movimentos bruscos, suas extravagâncias" - A mesma lógica,
aplicada à moda, sobreviveria na concepção de Lipovetsky até
os dias atuais. LIPOVESTSKY, Gilles. O Império do Efêmero:
A moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo:
Comp. das Letras, 1989. p. 23.
(9)
LIPOVESTSKY, Gilles. O Império do Efêmero: A moda e seu
destino nas sociedades modernas. São Paulo: Comp. das
Letras, 1989. p. 91
(10)
Charles -Frédérich Worth (1825-1895), inglês, foi para Paris
em 1845, tornando-se empregado da Maison Gagelin, onde vendia
mantos e xales. Cinco anos depois abriu uma loja de costura.
Em 1858, estabeleceu se próprio ateliê. Rapidamente caiu na
predileção da imperatriz Eugênia, sendo a influência e o apoio
dela muito propícios ao sucesso de Worth. Em 1860 aboliu a
crinolina e elevou a saia na parte de trás, formando também
uma cauda e, em 1865, elevou a cintura e criou a anquinha.
Com a queda do império, cinco anos depois, Worth fechou sua
Maison e a reabriu um ano mais tarde, continuando a ser o
maior costureiro parisiense, vestindo atrizes como Sarah Bernhardt
e Eleonora Duse e tendo como clientes a nobreza européia e
a sociedade internacional. Cf: O'HARA, Georgina. Enciclopédia
da Moda. De 1840 à década de 80. São Paulo, Companhia
das letras, 1992. pp. 289-290.
(11)
LIPOVESTSKY, Gilles. p. 92.
(12)
Sobre o antagonismo entre vestuário feminino expressos através
de silhuetas que lembrava um X em oposição ao H , ver: SOUZA,
Gilda de Mello e. op. Cit. p. 59.
(13)
BONADIO, Maria Claudia. Moda! Um perigo para as boas moças.
Estudo sobre a imagem feminina (1910-1930). Campinas:
Unicamp, 1996. (mimeo).
(14)
ROBERTS, Mary Louise. " 'This Civilizacion No Longer
Has Sexes' : La Garçonne and Cultural Crisis in France After
World War I"; in: Gender/History, vol 4, number
1, Spring 1992. Oxford. p. 53.
(15)
Gabrielle Bonheur Chanel (1873-1971), estilista francesa,
introduziu na alta moda feminina, também, uso das duas peças
e das bijuterias, adaptou os suéteres masculinos. Em 1920,
lançou calças largas para mulheres, baseadas nas bocas de
sino dos marinheiros, seguidas dois anos depois por pijamas
para a praia. Cf. O'HARA, Georgina. Enciclopédia da Moda.
De 1840 à década de 80, São Paulo: Comp. das letras,
1992 (Apoio Cultural- Cedro Cachoeira). p. 74.
(16)
DE LAURETIS, Teresa. p. 212.
(17)
Idem, p. 211
(18)
Idem, p. 212
(19)
Idem, p. 213
(20)
Anne Hollander, autora de "O Sexo e as Roupas",
reforça a associação moda/feminilidade, no Capítulo "Oque
é moda"; a autora afirma : "As roupas masculinas
claramente não fazem parte da "Moda", já que a "Moda
Masculina" é reconhecida como um subconjunto, e mal atinge
a fama e a ressonância atribuídas á "Moda". Cf:
HOLLANDER, Anne. O Sexo e as roupas: A evolução do traje
moderno. Rio de Janeiro: Rocco, 1996. p. 22-23. Gilda
de Mello e Souza no seu estudo "O Espírito da Roupas"
enfatiza a associação já referida em diversos momentos, como
no parágrafo inicial da seção "A cultura feminina"
: "Para o grupo feminino, porém, a moda continua sendo,
no século XIX a grande arma na luta entre os sexos e na afirmação
do indivíduo dentro do grupo." - filiando, assim, moda
a feminilidade. SOUZA, Gilda de Mello. O Espírito das
roupas: A moda no século dezenove. Companhia das Letras:
São Paulo, 1987.
(21)
DE LAURETIS, Teresa. DE LAURETIS, Teresa. "A Tecnologia
do Gênero". In: Tendências e Impasses: O Feminismo
como crítica da Cultura. Org.: Heloísa Buarque de Hollanda.
Rio de Janeiro: Rocco, 1994. p. 219.
(22)
No caso dos espartilhos, há evidências de que havia profissionais
da área preocupados com o conforto feminino. Herminine Cadolle
- proprietária da famosa marca de lingeries Cadolle - elaborou
para a Exposição Universal de 1899 um espartilho com laços,
que sustentava os seios, mas não comprimia o ventre, permitindo
maior conforto. Outro exemplo é Caresse Crosby - como ficou
conhecida Mary Phelp Jacoby, uma americana cansada dos apertos
dos espartilhos que junto a uma costureira francesa, criou
em 1913 o primeiro modelo de sutiã. O novo produto fez sucesso
entre suas amigas, levando-a a patentear a marca. Infelizmente
ela perderia dinheiro com o negócio, vendendo a patente para
a Warner Bross. Cf: FONTANEL, Béatrice. Sutiãs e Espartilhos:
Uma história de sedução. Rio de Janeiro: Salamandra,
1998. p. 77/89.
(23)
COTT, Nancy F. ."A mulher moderna: O estilo americano
dos anos vinte". in: História das mulheres no Ocidente.
O século XX. Porto/ São Paulo. Edições Afrontamentos/
EBRADIL, 1996. p.109.
(24)
COTT, Nancy F.. Op. Cit. p. 110.
(25)
COTT, Nancy F.. Op. Cit. p.110.
(26)
Idem.
(27)
Tais anotações são referentes a uma análise das propagandas
do Mappin dos anos de 1920-21. É possível que em outros anos
itens como promoção de cortinas seja substituído por grande
estoque de luvas ou enorme sortimento em sedas. Mas as chamadas
ligadas às datas são constantes em todo período aqui enfocado.
(28)
COTT, Nancy F.. Op. Cit. p. 109.
(29)
SEVCENKO, Nicolau: Orfeu Extático na Metrópole, São Paulo
sociedade e cultura nos frementes anos 20. São Paulo:
Comp. das Letras, 1992. p.228
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