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Solange Wajnman
Por Uma Identificação
das Novas Formas Estéticas : o novo objeto estético
I Introdução :
Este artigo sintetiza algumas das questões
centrais do nosso trabalho de pesquisa, modalidade Recém
Doutor, patrocinado pela Capes durante os anos de 95 à
97, na Escola de Comunicações e Artes, da Universidade
de São Paulo.
Nossa preocupação centrava-se nas questões
decorrentes da emergência de uma nova mentalidade a
partir da configuração das novas tecnologias
(sistemas informáticos inteligentes, realidades virtuais,
vinculações à redes). Esta nova mentalidade-sincrônica
ou condicionada pelos moldes das novas tecnologias-implicava
certamente, numa nova maneira de lidar com o real, de se apropriar
do objeto e de conhecer.
Nosso objetivo consistiu em detectar e identificar de maneira
bem geral, o surgimento de novas estruturas estéticas
análogas à estrutura da linguagem tecnológica.
Demonstrei que algumas das mesmas estruturas perceptivas encontradas
na linguagem tecnológica estão sendo desenvolvidas
sincronicamente em outros campos do saber. Estes campos são
: o objeto estético propriamente dito e o da moda contemporânea.
Neste artigo entretanto detivemo-nos no primeiro campo.
O abandono das grandes estruturas transcendentes e teleológicas
presentes nos grandes meta-relatos da modernidade implicam
numa nova linguagem. Ausência de centro, pluralidade
de sentidos, fragmentação são algumas
das novas estruturas que estão presentes atualmente
nos discursos do saber.
A arte e a literatura não escapam desta nova lógica,
constituindo toda uma nova gramática. Cultura do ornamento
e do signo, pastiche, revivals, ecletismo são alguns
destes elementos desta nova gramática.
Neste perspectiva é importante também ressaltar
aqui como a própria noção de história
e de verdade que acompanha estes novos discursos também
se modifica. A simultaneidade e contemporaneidade das mais
diversas experiências das sociedades, propagadas pelos
novos meios tecnológicos de comunicação,
modificam as antigas noções de história
e verdade. Não se pode considerar mais caminhos com
um sentido orientado (presente em direção ao
futuro) e nem numa verdade única. O tempo das experiências
pode se sobrepor, assim como são múltiplas as
verdades ou visões de mundo na vida social possibilitadas
pelas novas tecnologias.
Todas estas modificações no pensamento ético
e estético da sociedade são correlatas à
estrutura das novas tecnologias. A configuração
destas condiciona, molda, ao mesmo tempo que é espelhada
e refratada em todo o "esprit du temps" contemporâneo.
Nosso trabalho de pesquisa utiliza-se do recurso epistemológico
formista (Cf. Michel Maffesoli) já na própria
colocação da hipótese : dizemos que há
uma correlação entre o modelo das novas tecnologias
( relação sujeito-objeto, abstrato-concreto
etc) e as manifestações estéticas da
arte contemporânea.
Trata-se de propor a seguinte pergunta-hipótese : a
linguagem tecnológica, na sua estrutura essencial,
não se refletiria nas novas formas estéticas
(novo objeto de arte, moda) ? Em que medida isto estaria ocorrendo?
Para propor esta pergunta hipótese temos que colocar
em confronto categorias da nova linguagem tecnológica
com categorias das novas formas estéticas e verificar
a possibilidade desta interpenetração.
As categorias da linguagem tecnológica, de acordo com
o nossa revisão bibliográfica minuciosa sobre
o assunto são as seguintes :
1. As categorias da nova linguagem
tecnológica
1.1 da representação à presentação
1.2 o realismo conceitual
1.3 o abstrato sensível
1.4 a mutabilidade dos sentidos
A proposta de articulação
destas com as novas formas plásticas consiste no seguinte
encaminhamento :
2. A proposta de categorização
das novas formas plásticas
2.1 a visibilidade do invisível
2.2 o realismo conceitual e o orgânico
2.3 a corporeidade abstrata
2.4 mutabilidade de sentidos, transmutações
II O Caminho da Articulação
Na questão 1.1 (da representação
à presentação) trabalhamos o caminho
epistemológico que vai da representação
do real percebido e empírico à apresentação
do real sem mediação da percepção
concreta. Tal caminho é trilhado através do
estudo da relação sujeito-objeto encontrada
na fotografia, no cinema, na televisão, no vídeo-arte
e sobretudo nas imagens de síntese. Tentou-se mostrar
o caminho que leva o artista a apreender o real como o real-percebido
até ao real apreendido como simulação.
Em outras palavras, a discussão aí se remete
às maneiras que levam o olhar apreender e tornar visível,
o invisível.
Na questão 1.2 (o realismo conceitual) trabalhamos
exatamente a capacidade da linguagem tecnológica apreender
o real de forma conceitual, uma das possibilidades da simulação.
Isto significa mostrar como o real pode ser apreendido não
só pela percepção mas pela intuição,
pela imaginação ou por um diagrama estrutural
que se tem deste.
Na questão 1.3 (o abstrato-sensível) trabalharmos
um dos paradoxos mais característicos da imagem sintética:
a dimensão concreta e sensível do mundo abstrato
e formal da matemática. Ao mergulhar e navegar nos
mundos virtuais experimentamos uma sensação
realista e tangível. O corpo pode quase que fisicamente
experimentá-la. As roupagens especiais (luvas, óculos,
macacão) ainda acirram mais esta sensação.
O abstrato e o concreto ou o natural e o formal, tornam-se
através da linguagem numérica, definitivamente
entrelaçados.
No item 1.4 (a mutabilidade dos sentidos) enfocamos as questões
do tempo e espaço da linguagem tecnológica em
relação ao tempo e espaço do presente.
Existiria na primeira uma sobreposição de tempos.
Discutimos também neste item as combinações,
alterações de sentido entre o emissor e o receptor
dentro de uma rede hipertextual, do tipo Internet. O esquema
aí não seria mais "A" transmite alguma
coisa a "B"mas sim "A"modifica uma configuração
que é comum a A, B,C, D etc. Trata-se aqui de refletir
sobre "operações moleculares de associação
e desassociação que realizam a metamorfose perpétua
de sentido"(Pierre Levy).
III A Operacionalização
das Categorias
Tracemos agora uma operacionalização
das categorias que foram examinadas no estudo das formas estéticas.
As questões colocadas são uma tradução
formal da estrutura das linguagens tecnológicas. Elas
implicam no tamanho e dimensão da "rede"
pôr onde "capturaremos os nossos peixes",
ou seja a construção do olhar que permitiram
selecionar e analisar os dados. Vejamos :
2.1 A Visibilidade do Invisível
a)-caracterização do invisível :
As novas formas plásticas apresentam características
de imaterialidade, a transparência a fluidez, o fluxo,
a velocidade? Qual o material está sendo utilizado
?
b)-caracterização do visível:
como se dá o contato com o visível? Através
do ilusionismo tridimensional? da perspectiva? Ou ele se dá
através da superficialidade, da tactilidade? Existe
metáfora ou os caracteres físicos são
apresentados concretamente?Como é a relação
com o espaço?
c)-caracterização da relação espectador-obra:
existe a separação sujeito/objeto, o espectador
é incorporado à obra ?
2.2 A Relação Abstrato
/Concreto
a)-relação entre o conceitual e o orgânico
como se dá a relação entre o construtivismo
e a organicidade? entre a simetria, o racional e o gestual
barroco expressivo?
- relação entre a substância e abstração
quais são e como se dá a utilização
das substâncias? Como estes materiais, enquanto substância
pode veicular a abstração?
b)-os novos atributos do espaço :
como o espaço é caracterizado ? Ele é
extensão infinita, etérea ou corporificado e
sujeito a limites?
2.3 Mutabilidade de sentidos/ transmutações
a)-justaposição de tempos, espaços, hibridismos
os estilos se justapõem ? Os tempos e espaços
estão fragmentados? Eles são intercambiáveis?
b)-transmutação de elementos
em outros
IV O Procedimento
O material empírico no seu levantamento,
tabulação e análise consistiu no seguinte
tratamento:
a) o levantamento do material
Selecionamos praticamente todas as reportagens dos anos de
93/94 (artes plásticas) e 93/94 e início de
95 (moda) publicadas na Folha de São Paulo.
Trabalhamos com praticamente todas as notícias do período.
Os fatos "miúdos", o estudo das pequenas
realizações dos artistas e estilistas ainda
sem renome são fundamentais para o nosso método.
Tal estudo deve mostrar a CONVERGÊNCIA, para utilizar
o termo empregado por Michel Maffesoli ( Cf. La Conaissance
Ordinaire) , destes "anônimos"em direção
aos trabalho dos artistas renomados e das instituições.
No entanto, as reportagens que tratavam dos "notáveis",
foram, pôr este mesmo motivo mais privilegiadas do que
as primeiras, na etapa de seleção do material.
Consultamos até mesmo um material suplementar para
auxiliar a análise. Tal prioridade é compatível
com o exercício epistemológico da Forma (Cf.
La Conaissance Ordinaire). A escolha aponta para um exemplo
paroxístico do fenômeno, um instante onde ele
é melhor apreendido. Este é, o caso pôr
exemplo de mostras de arte organizadas pôr uma instituição
ou a carreira de um artista legitimado.
b) tabulação do material
Fizemos uma tabulação
de acordo com as categorias operacionalizadas pôr nós.
Toda reportagem foi enquadrada num dos pontos acima discutidos.
Ocorreu, porém, com frequência que um mesmo
trabalho de um artista possa estar subsumido a várias
categorias. Ou, ao contrário, a existência (menor
frequência) de trabalhos sem absolutamente nenhum
vínculo com os demais. Estes não entrararam
na tabulação.
c) análise do material
Fizemos uma pré-análise
do material que consistiu em articular os conceitos dos trabalhos
contidos nas próprias reportagens - exceção
feita para alguns trabalhos mais significativos, onde houve
a busca de outras fontes de material -com as categorias estabelecidas.
V Um Panorama Geral Dos Resultados Obtidos
Apresentamos aqui um panorama geral
dos resultados obtidos
2.1 A Visibilidade do Invisível
2.1.1 caracterização do invisível :
Observamos, em uma grande parte dos trabalhos, uma tendência
à
velocidade, ao fluxo, a fluidez, a imaterialidade, a transparência
e a virtualidade. Selecionamos alguns exemplos significativos.
a)O projeto Arte-Cidade realizado em
94.
Este projeto é um exemplo paroxístico da tendência
atual que se delineia. Trabalhando com o método da
"Forma" devemos estar preocupados com o movimento
que faz o percurso entre a cristalização do
fenômeno em instituições e sua ressonância
em pequenos atores. Este exemplo é, portanto, muito
instrutivo. A cidade promove o evento; portanto há
uma legitimação institucional. Pôr outro
lado, os artistas que aí estão também
desenvolvem os mesmos temas separadamente. Encontra-se aí
um momento privilegiado do método da "Forma"que
utilizamos.
Reproduzimos as citações ilustrativas da tendência
à invisibilidade:
"(...) o atual evento está preocupado com questões
como imaterialidade e as novas tecnologias na trama urbana."
"Meu interesse é pela ambiguidade do indivíduo
urbano inserido num contexto onde há um excesso de
movimento. O movimento da cidade prescinde desse indivíduo
todo fisicalidade que se perde"diz o fotógrafo
Rubens Mano, que instalou 2 velhos holofotes do exército
no Viaduto do Chá. Os dois fachos de luz ficarão
acesos, dos dois lados do viaduto, perpendiculares ao fluxo
dos pedestres, entre 18.30 e 21 horas. "Os feixes de
luz, muito forte são a representação
dessa situação. Eles iluminam o indivíduo
e ao mesmo tempo, o anulam. A sombra continua, sem anteparo,
para o infinito. Não há possibilidade do registro
desse indivíduo"diz Mano.
"A imaterialidade também está presente
no jogo de espelhos do enorme periscópio colocada na
fachada do prédio da Eletropaulo para Guto Lacaz e
nos trabalhos apresentados pôr Arthur Lescher, 32."
- O Projeto Arte-Cidade
"Fluidez tecnológica das experiências tecnológicas
contemporâneas da cidade."
"tudo é fluxo e passagem, intercâmbio rápido,
velocidade, dissolução do próprio conteúdo
da experiência. Sequer resta um lugar único onde
a exposição é feita. Você transita
de um lugar para outro".
o trabalho de Tadeu Jungle, elevador "enfatiza a rapidez
da experiência, uns poucos andares, uma obra de arte
em menos de um minuto, eis tudo."
Regina Silveira e o jogo de sombras virtuais
"Anna Muylaert trata muito bem da fugacidade. Foi mais
longe que ninguém, ao fazer um trabalho que sequer
conhece lugar fixo."
b) O trabalho de Hans Donner
Ainda que tenha sido noticiado apenas uma vez no jornal, consideramos
este caso como significativo dentro do mesmo espírito
metodológico do exemplo anterior. Ele é significativo
na medida em que o trabalho de computação gráfica
de Hans Donner na televisão é bastante reconhecido
e legitimado. O trabalho agora como designer implica numa
certa ressonância com a tendência à imaterialidade.
" trabalho de computação
gráfica aplicado aos móveis, móveis que
flutuam"
c) O trabalho de Mira Schendell
Em todo o trabalho desta artista a noção de
transparência e imaterialidade é fundamental.
Ela é um dos componentes das dualidades que procura
resolver.
Podemos citar como um exemplo importante desta preocupação,
a série "Objetos Gráficos"(realizada
entre fins de 60 e princípios de 70). Sônia Salztein,
no livro "No Vazio do Mundo", descreve e comenta
esta obra. Ela consistia em placas de acrílico que
deveriam ser suspensas- de modo a permitir a circulação
entre elas-e que traziam prensados entre elas, dezenas de
desenhos feitos em papel translúcido, mostrando um
amálgama de letras, caligrafias, frases dispersas.
Sônia Salztein observa, particularmente sobre este trabalho
um caráter de virtualidade. Ela tem uma impressão
curiosa : os signos literalmente flutuam no espaço.
d) O trabalho de Baravelli :
A exposição de Baravelli realizada em 93 mostra
que seu trabalho passa de um caminho analítico para
um caminho mais sensorial. E é dentro deste espírito
sensorial que Baravelli trabalha de maneiras múltiplas
a questão dos espectros. Transcrevemos um destes momentos
apontados na notícia :
"Baravelli investiga "Deus" pôr meio
de transparências semi-fluidas ( o acrílico ganha
uma superfície sinuosa e enrugada (como se fosse plástico)"
e) O trabalho de Amelia Toledo :
A questão da imaterialidade e da transparência
vem sendo trabalhada pela artista há 20 anos. Nos seus
mais recentes trabalhos estas características são
provocadas pelas mudanças no valor tonal das cores.
Há nas telas monocromáticas um jogo de camadas
de pigmento e de transparência. Trazemos a notícia
:
"As séries mais recentes, que formam o labirinto
em aço inoxidável batizado "Contos na Cor"
traduzem o procedimento científico da visionária
Amélia, de trabalhar no limite da imaterialidade. Essa
série, realizada no ano passado (...) tem 120 peças
realizadas em 40 anos de atividade. Basicamente, essas esculturas
propõem um jogo ao telespectador, disposto a confundir
seus sentidos com a cor virtual. Chapas azuis, roxas, polidas,
refletem suas cores com superfícies ásperas."
2.1.2 caracterização
do visível :
- O fim do ilusionismo
a) Em Regina Silveira a ilusão do plano é desfeita,
há o desmanche do ponto central único. Como
mostra Teixeira Coelho em "Moderno, Pós-Moderno",
seu olhar se escreve na mesma linha de revisão do 'homem
moderno', firmada em graus diversos, pelo surrealismo, pelo
cubismo e pelo abstracionismo. O crítico prossegue
: "(o trabalho de Regina) aponta para o não-visível,
mas permite ver-se fazendo isso: o que lhe interessa é
figurar o não-visível e não se tornar,
ele mesmo, não visível. Analisando a obra "Inflexões"
(mas poderíamos estender esta análise para toda
sua obra) o crítico observa :
"o objeto está fora de lugar, o código
de figuração está fora de lugar, o suporte
material da arte está fora de lugar, o espectador está
fora de lugar. Se algum desses componentes permanecesse em
seu lugar, o efeito final não se produziria- e o homem
continuaria a ver como o homem moderno."
b) Na obra de Gary Hills a percepção
e a perspectiva tradicionais são alteradas : Vejamos
o que diz o própria notícia do jornal : "O
espectador entrou num corredor escuro e, conforme seis olhos
se acostumavam com a penumbra, via vultos a sua volta caminhando
em sua direção sem nunca chegar. A ilusão
perturbadora dessa proximidade difusa fazia com que o espectador
estabelecesse uma relação especular, sem entender
a princípio se aquelas imagens eram reflexos de si
mesmos ou de outras pessoas reais, outros espectadores que
talvez estivessem na sala, a seu lado.
Essa estranha percepção dos corpos é
um dos temas recorrentes do trabalho de Gary Hill, que pretende
abalar fronteiras previamente estabelecidas entre o eu e o
outro, o anterior e o exterior, o subjetivo e o objetivo.
c) Paulo Monteiro
As linhas que aparecem nos seus desenhos e nas esculturas
são instáveis. Elas mostram a instabilidade
e a turbulência do momento da configuração
orgânica. Como mostra o artigo da Folha de São
Paulo, "o artista não estabelece uma hierarquia
e nem quer confinar a linha. Ela se expande, rompe com os
limites do papel, usa suas margens. Nas telas, a tinta salta
para fora da tela(...) .O espectador é também
atingido pôr esta instabilidade, sendo retirado de sua
passividade diante do visível. Ele também é
obrigado a entrar no ritmo de turbulência dos garranchos
e rabiscos.
- A superficialidade e tactilidade
:
a)Márcia Thompson
O trabalho de Márcia Thompson explora as qualidades
sensíveis da superfície pictórica. Existe
uma intenção de tornar concreta "os pulsos
emitidos pela vibração cromática".
É a própria vivência da cor e da matéria
que é ressaltada.
b)Mira Schendell
Segundo a leitura de Sônia Salztein, com a qual concordamos,
o trabalho de Mira Schendell foi, em muitos momentos, um esforço
para atingir a tatilidade e a superfície das coisas
.Nas últimas décadas, ela atinge uma noção
de "fisicalidade" muito forte.
Na série "As frutas"de 80 a artista, segundo
Sônia, pinta um conjunto numeroso de têmperas
que são pura exterioridade. A profundidade das cores
é rasa e difusa levando a percepção "a
flutuar ou a rebater-se sobre si mesma".
O trabalho "Sarrafos" é um outro exemplo.
Neste trabalho "é impossível abstrair tais
caibros de madeira como linhas virtuais recortando um horizonte
ideal. Sônia observa que aí a fisicalidade é
impositiva, e demove toda possível inclinação
idealista de nossa visão. Na condição
de observadores, sujeitos, afinal, somos capturados para dentro
desse trabalho e passamos a fazer parte de sua matéria
opaca e insondável.
- Corporalidade do espaço :
O espaço não é mais extensão infinita,
etérea mas corporificado.
a)relevos de Lizmag :
inexiste uma tentativa de representação do espaço.
Ele deixa de ser uma entidade abstrata e passa a ser objeto
de especulação sobre a possibilidade de medida.
b)as linhas de Elisa Bracher :
as linhas rompem os limites do espaço. O espaço
não tem dentro, fora, centro e externo. É o
espaço vivido e tocado das gravuras que define o espaço.
Não se trata mais de um espaço infinito, homogêneo.
É o jogo entre o tamanho natural das gravuras e o corpo
do espectador que propicia este novo espaço.
c)as dimensões de Mira Schendell
O trabalho citado acima, da série de desenhos "As
frutas" prescinde de qualquer noção de
lugar ou de contexto. Como observa Sônia Salztein, "as
linhas do horizonte presentes nestes desenhos ou são
muito altas ou muito baixas para poderem ser situadas espacialmente".
O entorno destas frutas não está sujeito a uma
dimensão espacial tradicional (espaço infinito
e etéreo), onde o observador se situaria num ponto
de vista especial. O espaço, ele mesmo, contém
uma interioridade, um diagrama do real supra-subjetivo, avesso
a qualquer antropomorfismo. Sônia diz :
Com essas frutas que lembram cifras, o trabalho terá
chegado a uma nova modalidade de espacialização,
sem qualquer referência à posição
relativa de um observador. Elas pertencem àquela interioridade
una (...)e, e demonstram-se mais do que nunca irredutíveis
a qualquer antropomorfismo ( pois os desenhos não sabem
o que é próximo ou distante, claro ou escuro,
terno ou rígido, denso ou rarefeito.)"
d) o espaço de Tomie Othake
Em Othake o dentro e o fora, o interno e o externo não
se definem mais pelo grafismo. Estas categorias agora são
definidas de uma nova maneira. Resta-nos aprofundar ainda
o trabalho da artista.
2.2 A Relação Abstrato/Concreto
Podemos dizer que praticamente todos os trabalhos do período
estudado colocam esta relação entre o abstrato
e o concreto. Esta relação pode ser considerada
como uma marca característica.
2.2.1 relação entre o conceitual e o orgânico
ou sensível
Trazemos aqui vários exemplos :
a)Trabalho de Dias ( o orgânico contra o construtivo),
b) Sued, Sônia Hannud(o orgânico ironizando o
racional),
c)Mira Schendell(oscilação entre o puramente
sensível de um lado e o conceitual de outro)
d) O trabalho de Sanches : "Neste trabalho o orgânico
é quase sempre insinuado; curvas nascem e ganham liberdade
contida, relativa- a partir de formas puramente geométricas
(triângulos, poliedros)."
e)O trabalho de Resende : "A lógica construtiva
e a irracionalidade"
f)O trabalho do anglo-indiano Anisch Kapour e do inglês
Richard Long : "ponte entre o orgânico e o construtivo".
Especificamente sobre o segundo artista, reproduzimos alguns
trechos da reportagem da Folha : "(...)num dos trabalhos
mais conhecidos, pôr exemplo, ele fez um círculo
enorme numa parede, que cobriu com lama, a qual traz as marcas
de mão dispostas não unileatoriamente."
Segue a entrevista:
"Folha-Você usa materiais orgânicos em seus
trabalhos, mas estes são construtivistas, trazem estruturas
simétricas mesmo. Qual a intenção?
Long : "...Meus trabalhos são como grandes obras
minimalistas traçadas na natureza. Ficam entre o acaso
e o artificial, entre o construtivo e o orgânico."
2.2.2 Relação entre substância e abstração
:
Dissemos acima que numa grande parte dos trabalhos a questão
da abstração e a concreção é
colocada. Como isto se resolve nestes trabalhos?
Dora Vallier em "Arte Abstracta" é útil
numa leitura geral destes trabalhos. Ela observa que "as
formas deixam de ser abstratas em intenção,
mas vinculam a abstração como um valor interior
inseparável de substância. A substância
é concreta mas traz um valor interior contaminado de
abstração". Vejamos mais alguns exemplos
que, embora sem um estudo aprofundado, caminham nesta direção
:
a) trabalho de Jac Lerner : Não trabalha com metáforas.
Trabalha com materiais simples sempre observando os elementos
essenciais como o peso, a medida, a quantidade. Mas estes
elementos estão carregados de abstração.
b) trabalho de Resende : Para o artista "os caracteres
físicos não são virtuais, simbólicos
ou de representação, mas existem literalmente".
Para Resende "não se trata de uma abstração
de algumas cores ou a abstração pura. É
uma experiência que nasce da própria experiência
com o material".
Há vários trabalhos cujo
motivo temático e a própria maneira de construí-los
é o orgânico, o corpo e o escatológico.
Podemos citar, entre outros, o trabalho de Nazareth, Adriane
Varejão e vários trabalhos da bienal de Veneza
de 93 onde a utilização de materiais e restos
orgânicos substituem tintas e outros materiais artísticos.
Restou-nos ainda aprofundar nestes trabalhos o estudo da relação
entre o orgânico e a abstração. Existem
pistas que este entrelace é criado de forma importante.
2.3 Mutabilidade de sentidos/ transmutações
2.3.1 justaposição de
tempos, espaços, hibridismos
Os tempos e os espaços se justapõem, lugares
e momentos se hibridizam.
a)trabalho de Nassa (escolhido para representar o Brasil em
Veneza) : faz um jogo com o sentido dos pontos cardeais e
com o tempo.
b)trabalho de C.Y Trumbly : é característico
do trabalho do artista manter uma ligação com
a arte do passado seja ele imediato ou distante-como a Grécia
e Roma antiga.
c)trabalho de Denise Milan e José Resende de 94, na
Poli. Deusa grega e seu templo, o Parthenon trazendo "a
idéia de que as pessoas possam subir e falar recuperando
um pouco o teatro grego e a própria idéia do
palco".
d)trabalho de Lothar Baumgarten : aproveita a arquitetura
do lugar. O movimento do visitante é circular. Não
existe direita e esquerda, um único ponto de vista.
Toda a América está aqui num novo mapa-mundi.
O visitante está sempre no centro.
e)Na Bienal de 93 de Veneza a arte contemporânea é
vista como o resultado de um nomadismo cultural de coexistência
de diferentes linguagens. A bienal abriga 40 países
:"a tecnologia e a evolução da sociedade
moderna levam à necessidade da "viagem" indo
em busca das culturas do "outro" para encontrar
uma energia expressiva.
2.3.2 transmutações de
elementos em outros/mudanças de sentido
a)Jac Leiner :
O trabalho da artista tem consistido em colecionar resíduos,
cacos da sociedade industrial :
"(...) Formada em artes plásticas (...), Jac Leiner
sempre trabalhou em séries. Em 85, contou num banco
70 mil notas de cem cruzeiros e criou "os cem".
Dois anos depois sai o dinheiro e entram maços de cigarro,
da série "O Pulmão. Uma Escatologia Industrial".
Em 87 criou "Os Nomes"com sacolas de lojas e expôs
na Bienal. A série atual "Corpus Delit" foi
exposta pela primeira vez na Documenta de Kassel no ano passado.
No princípio eram só cinzeiros de avião."
A artista altera as funções e os sentidos dos
cacos, resíduos e objetos com os quais trabalha. Existe
aqui um trabalho de transformação. Vejamos um
trecho da entrevista à Folha de São Paulo :
"Jac- Eu não queria que você falasse na
palavra alquimia que é transformar metal em ouro, mas
é mais ou menos pôr aí. É transformar
a neutralidade numa coisa que não seja neutra, para
dar um corpo às coisas que não sejam neutras,
para dar um corpo às coisas que não tem lugar
no mundo. O lugar de uma "necessaire"é dentro
da gaveta. A partir do momento que dou um lugar para a "necessaire"que
não é a gaveta, estou tirando ela do lugar que
não existe. A idéia é quebrar a neutralidade
das coisas, dar um corpo para as coisas que não tem
corpo nem lugar. É como fazer um trabalho com fitinhas
de celofane que abrem os maços de cigarro. Fitinha
de celofane é uma coisa que não existe, é
totalmente neutra aos nossos olhos."
b)Regina Silveira :
Em Regina Silveira as formas são mutantes. Trata-se
de "uma geometria em trânsito ", ou seja deformações
geométricas dos objetos que os transformam em outros
objetos. É significativo neste sentido que o nome de
uma de suas exposições seja justamente "Anamorfas",
anamorfoses justamente. O crítico Miltom Hatour observa
:
"Em vez de se ater a uma "metafísica da essência",
ela prefere fazer uma incursão ontológica aos
objetos e espaços livres de suas determinações
particulares. Assim, a leitura desses espaços é
sempre polissêmica : a deformação geométrica
dos objetos e espaços produz uma perturbação
visual incomum, difusa e plural. Espaços fictícios,
imagens inventadas que parecem procurar um ponto de apoio
que afinal inexiste."
c)Nuno Ramos :
O trabalho que Nuno Ramos preparou para a 22a. Bienal de São
Paulo teve a preocupação em transformar elementos
de ordem diferentes. Ele diz na entrevista à Folha
de São Paulo :
"(...)No meu trabalho, a linguagem ganha matéria-e
nesse momento ela deixa de ser linguagem. 'Mácula'é
uma tentativa de entrelaçar linguagens. Tenho uma ligação
muito forte com a matéria e, ao mesmo tempo, uma tendência
à sublimação da matéria com materiais
frágeis como o sal. O paradoxo da matéria virando
linguagem e da linguagem virando matéria é muito
rica para mim", diz."
d) Gary Hill
O trabalho do artista aproxima elementos de ordens diferentes,
tenta romper as diferenças. Ele diz na reportagem :
"Em geral meu trabalho tem a ver com a materialidade
da linguagem, onde não há uma separação
entre o pensamento e a linguagem, o pensamento passa a ser
uma atividade metafísica, visível.
Folha- Pôr que é tão importante mostrar
a materialidade da linguagem?
Hill- Não é uma necessidade. Tento chegar a
um limite, me aproximar dessa fronteira, onde separamos as
coisas. Temos teorias sobre o que é físico e
o que não é. Tento romper essa categorização
de como vivenciamos a linguagem, a imagem, a carne ou o que
quer que seja. Não trabalho teoricamente(...)"
VI COMENTÁRIOS FINAIS
Trabalhando através do viés
jornalístico, pudemos constatar que uma importante
parcela das obras estéticas realizadas no período
acima citado podem perfeitamente ser articuladas às
categorias da linguagem tecnológica.
Existe uma coerência das obras com as características
propostas por nós a partir do estudo prévio
com a linguagem tecnológica. Resta-nos agora aprofundar
o estudo geral destas conexões.
VII BIBLIOGRAFIA
- notícias recolhidas na Folha
de São Paulo, anos 93/94
- Catálogos de exposições de Regina Silveira.
Crítico: Miltom Hatour.
-Resenha do livro de Sônia Salztein "No Vazio do
Mundo", realizado pela própria autora para a exposição
do Sesi de outubro de1996.
-Coelho,T. "Moderno,Pós-Moderno", São
Paulo, Iluminuras, 1995.
-Levy, Pierre, As Tecnologias da Inteligência. O futuro
do pensamento na era da informática, Rio de Janeiro,
Editora 34, 1993.
- Maffesoli, Michel., La connaissance ordinaire, Paris, Ed.
PUF, 1981
-Vallier, D, "A Arte Abstracta",Lisboa, Edições
70, 1980
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