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Maria
Claudia Bonadio
Durante todo o século
XIX, as mulheres de elite tiveram a silhueta desenhada pelo
vestuário em forma de um X (mangas bufantes
e seios pronunciados, cintura afinada por espartilhos e saias
que tornavam a circunferência de base três vezes o tamanho
do corpo), contrastando, assim, com a do homem, cujo corpo,
graças à roupa de corte reto, em duas peças, lembrava a letra
H, as roupas naquele momento afirmavam o
antagonismo entre masculino e feminino, como ressalta Gilda
de Melo e Souza (ver nota 1). Uma mudança
notável ocorreu por volta de 1920. Os vestidos de corte reto,
com saias que variavam entre as canelas e os joelhos, e cintura
baixa pouco marcada, colocaram as duas retas inclinadas do
X lado a lado, aproximando-o do H
desenhado pelo traje masculino (ver nota 2).
Remodelaram-se, desse modo, a silhueta das mulheres, as relações
de gênero e também os espaços de sociabilidade feminina (ver
nota 3).
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Anúncio
do Mappin Stores, 1925 |
Entre os fatores que colaboraram
para revolucionar a moda ressaltamos, o advento dos esportes
na última década do século XIX. A primeira transformação veio
por volta de 1890, com a popularização das bicicletas. Como
era impossível às mulheres praticarem o ciclismo com saias
de longas caudas, muito em uso nestes tempos, criou-se um
"traje bifurcado", as blommings (calças bufantes,
com elástico nos joelhos). A partir de então, temos uma sucessão
de roupas que entram na moda provindas do uso esportivo, tais
como o cardigã sem mangas (espécie de paletó de origem militar,
confeccionado em lã) , que foi introduzido pelo golfe, ou
as saias na altura dos joelhos - criações de Jean Patou, usadas
pela primeira vez pela estrela do tênis Suzanne Lenglen em
1921.
Segundo Lipovestsky "Os
estilos versáteis e funcionais, sexy, não são separáveis nem
da voga crescente dos esportes nem do universo individualista
democrático que afirma a autonomia primeira das pessoas; juntos
desencadearam um processo de desnudação do corpo feminino
e um processo de redução das coações rígidas do vestuário
que entravam a expressão livre da individualidade. Os esportes
dignificaram o corpo natural; permitiram mostrá-lo mais tal
como é, desembaraçado das armaduras e trucagens excessivas
do vestuário." (ver nota 4)
A Primeira Guerra Mundial
impulsionaria ainda mais a simplificação dos trajes a partir
de 1914, principalmente na Europa (centro produtor e criador
de moda), onde havia a necessidade da economia de tecidos
e da praticidade das roupas, pois, com os homens no front
de batalha, a mulher precisava assumir as tarefas masculinas
(ver nota 5). A simplicidade transformou-se
em moda quando a estilista Coco Chanel apropriou-se das fardas
masculinas e deu-lhes um corte mais delicado: substituiu as
calças pelas saias e criou o tailleur para o dia e o vestido
de corte reto e tecidos leves para noite, evidenciando a silhueta
e ressaltando a associação beleza e corpo (ver nota
6).
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Os
esportes e os trajes mais confortáveis.
Ilustração
de Jorge Americano
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O novo padrão estético
proporcionado pela moda e pelo esporte começa a valorizar
o corpo em si, de modo que o cultivo deste e, em especial,
de sua beleza começa a deixar de ser o "maior obstáculo
para a salvação" (ver nota 7), para
iniciar uma era em que o corpo seria cada vez mais valorizado
pelas belas formas. A aparência feminina, agora composta de
vestidos curtos e retos, demonstra também uma apropriação
das linhas do vestuário masculino, observável, com maior clareza,
nos tailleurs. Os cabelos à la garçonne e a exaltação da silhueta
longilínea aproximam a aparência feminina da masculina, roubando
precisão e clareza às fronteiras entre os sexos, o que impele
uma redefinição dos papéis sociais do homem e da mulher. Ocorre
o que Mary Louise Roberts (ver nota 8) chama
de "borrão": as linhas de contorno que colocavam
homem e mulher numa incontestável oposição começam a perder
a nitidez. Se é importante observar esse esfumaçar de fronteiras,
decorrente de transformações econômicas e sociais impulsionadas
pela primeira guerra e explicitada pelos novos trajes, é necessário
notar que a moda neste momento simboliza ainda uma aproximação
com o masculino, que ainda demoraria a ocorrer, (da mesma
maneira, também os ideais preconizados pelo traje na década
de 20 só iriam se concretizar nos anos 60).
(1) Cf. SOUZA, Gilda de
Mello e, op. cit. p. 59.
(2) BONADIO, Maria Claudia.
Moda! Um Perigo para as Boas Moças. Estudo sobre a imagem
feminina (1900-1930). Campinas: 1996. (mimeo)
(3) Mary Louise Roberts
aponta para a aproximação das fronteiras entre os gêneros
através das roupas e do comportamento condicionada pela guerra
na França. Ver: ROBERTS, Mary Louise, op cit p. 50.
(4) Cf. LIPOVETSKY, Gilles,
op. cit. p.76.
(5) ROBERTS, Mary Louise,
op. cit. p. 53.
(6) Gabrielle Bonheur
Chanel (1873-1971), estilista francesa, que introduziu na
alta moda feminina, o uso dos cabelos curtos, das duas peças,
bijuterias, adaptou os suéteres masculinos, e em 1920 lançou
calças largas para mulheres, baseadas nas bocas de sino dos
marinheiros, seguidas dois anos depois por pijamas para a
praia.Cf. O'HARA, Georgina, op. cit, p. 74.
(7) KNIBLIER, Yvonne.
Corpos e corações. in: História das mulheres no Ocidente.
vol. 4. Porto/São Paulo: Afrontamentos/Ebradil, 1995. p. 351.
(8) ROBERTS, Mary Louise,
op. cit. p. 50.
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