Marko Monteiro
Corpo, moda e masculinidade: mudanças
na masculinidade a partir dos anos 60
(Texto apresentado na reunião da ANPUH - São
Paulo, 05/09/2000)
Resumo:
Este trabalho discute mudanças
nas representações da masculinidade contemporaneamente.
Ou seja, de que formas as representações sobre
o masculino em revistas se desenvolveram? Meu argumento é
de que ocorre, desde os anos 60, uma crescente erotização
do masculino. Assim como uma crescente colonização
do masculino com formas de representação tidos
como classicamente femininos, como o cuidado com o corpo,
a moda e a aparência. A moda portanto é um dos
campos onde estas novas representações do masculino
e do corpo do homem se desenvolvem com maior intensidade.
Desta forma preocupações com a aparência,
o cuidado com o corpo e a moda, sempre tidos como exclusivas
do feminino e de homens não masculinos, são
crescentemente resignificadas como partes integrantes de um
"ser homem" contemporâneo. Me baseio para
esta discussão nas minhas pesquisas com revistas masculinas
contemporâneas, que realizo no âmbito do mestrado
em Antropologia da UNICAMP.
Nesta comunicação apresento
uma discussão que se desdobra em quase quatro anos
e meio de pesquisa, dividida em duas fases distintas mas intimamente
relacionadas. Primeiro, uma pesquisa de graduação,
com duração de dois anos, a respeito da revista
Ele Ela no início dos anos 70. Esta pesquisa resultou
em um livro, Tenham Piedade dos Homens! Masculinidades em
Mudança (Juiz de Fora: FEME, 2000), publicado este
ano, que representa o relatório final com os resultados
desta pesquisa. Nesta pesquisa trato das mudanças ocorridas
na representação da masculinidade ocorridas
a partir de 1969 com o surgimento do feminismo e do movimento
gay, temas amplamente debatidos naquela revista, que era a
de maior circulação no período analisado
(1969-1972).
Segundo, minha atual pesquisa de mestrado
(antropologia Social, UNICAMP), em fase de conclusão,
a respeito de três revistas masculinas brasileiras contemporâneas
(VIP Exame, Sui Generis e Homens), abordando a multiplicidade
de propostas editoriais voltadas ao publico masculino atualmente.
Nesta pesquisa busco investigar o processo de produção
destas revistas e relacionar isto com a representação
da masculinidade em suas páginas. Ao relacionar revistas
gays e heterossexuais, busco ver a fricção existente
entre estes dois campos e avaliar de que forma a pluralização
da masculinidade contemporânea coloca em cheque a própria
noção unificada de uma "masculinidade".
Em ambas as pesquisas um dos temas
mais importantes é a representação do
corpo masculino em imagens e sua discussão em textos
e matérias. Pois uma das conclusões da pesquisa
com a Ele Ela é a de que os homens, anteriormente aos
anos 60, raramente apareciam representados em revistas, sob
a forma de imagens que exploravam os seus aspectos eróticos
e corporais, que explorassem a sua "masculinidade"
enquanto atributo a ser apreciado visualmente e a ser debatido,
explorado. Aos homens era reservada a posição
de sujeito na política, na arte e na História,
sendo somente representado enquanto figura pública
(artista, presidente, político, papa). A mulher no
entanto era utilizada largamente como recurso visual e decorativo.
O corpo da mulher aparecia na maioria das vezes extirpado
de personalidade, como mero rosto, como beleza a ser apreciada,
representando sentimentos abstratos como o amor, a lealdade
ou a saudade (ver nota 1).
Com o passar do tempo esta situação
muda, a começar com a chamada "Revolução
Sexual" dos anos 60. A revista Ele Ela se insere neste
contexto de mudança de costumes, já representando
em si mesma uma proposta de inovação ao abordar
temas voltados ao casal (rompendo com a tradição
de revistas deste tipo voltadas exclusivamente ao público
feminino). As mudanças trazidas com a Revolução
Sexual vieram questionar a posição passiva e
submissa da mulher, o casamento, a fidelidade como prerrogativa
feminina e trouxe à tona muitas discussões em
torno do comportamento sexual de homens e mulheres. Estes
deslocamentos têm como ponto culminante a aparição,
no final da década de 60, de movimentos contestatórios
ainda mais radicais, como o feminismo e o movimento gay.
O feminismo criticava de forma radical
a exploração sexual da mulher na mídia
e a sua impossibilidade de ocupar posições públicas
fora do lar. Estava lançada a crítica fundamental
à masculinidade vigente, pois esta crítica levou
necessariamente ao uma crítica do machismo enquanto
instituição que permeia toda a sociedade, do
lar ao trabalho, da política à mídia.
A posição de objetos sexuais e meros adereços
ao poder masculino foi recusada pelas feministas, que eram
criticadas na época por serem masculinizadas e mal
amadas, em vários artigos da revista Ele Ela (ver nota
2).
O movimento gay, por sua vez, se configurou
num movimento que critica a obrigatoriedade do relacionamento
sexual dos homens exclusivamente e obrigatoriamente com mulheres,
reivindicando uma pluralidade na sexualidade humana afim de
abarcar o amor entre pessoas do mesmo sexo. Isto também
representou um duro golpe no machismo e na posição
privilegiada do homem. Pois os gays também trouxeram
para a arena política da época discussões
em torno na identidade masculina como sento machista, reivindicando
para si a possibilidade de possuir atributos tidos como exclusivamente
femininos sem com isso sofrer discriminação.
Ou seja, amar outro homem, cuidar da
aparência, apreciar o corpo masculino, explorar de forma
mais aberta os sentimentos, foram toda críticas colocadas
pioneiramente pelos gays na época. Muitas destas reivindicações,
como por exemplo a de poder expressar sentimentos de forma
mais aberta, foram retomadas por homens heterossexuais pró
feministas, bastante atuantes atualmente nos EUA, Europa e
Austrália.
Desde o final dos anos 60 vemos uma
bateria de críticas sistemáticas à tradicional
identidade masculina. Já naquele período haviam
pressões para que as possibilidades de se vivenciar
o masculino fossem ampliadas. Ou seja, reivindicava-se que
o homem, antes restrito a uma identidade única de macho
patriarcal, pudesse explorar outras formas de viver e de ser
homem. Com estes resultados me interessei em desenvolver a
minha pesquisa de mestrado a respeito do mercado editorial
atual, exatamente para avaliar de que forma estes desenvolvimentos
foram incorporados na situação contemporânea.
Ao escolher as revistas para pesquisar,
tive preferência por aquelas que de alguma forma inovaram
em seu perfil editorial. Por exemplo a VIP Exame, editada
pela Abril, representa um modelo diferenciado de revista masculina,
por explorar abertamente temas como moda, beleza e saúde
do homem, antes tidos como restritos ao público feminino.
Portanto uma revista como a VIP, única no mercado editorial
brasileiro, representa a meu ver como o mercado mudou diante
daqueles processos de questionakmento iniciados nos anos 60.
Ao mesmo tempo a importância
das críticas do movimento gay foram centrais no argumento
que construí a respeito da revista Ele Ela. Por isso
resolvi incorporar na pesquisa atual publicações
gays, especificamente a Sui Generis (que muito recentemente
deixou de ser editada) e a Homens, ambas editadas pela SG
Press, uma micro-editora carioca especializada neste mercado.
Ou seja, queria nesta pesquisa manter uma base para a comparação
entre os dois tipos de publicação, afim de perceber
como o convívio entre propostas tão disparatadas
havia colocado em cheque uma noção unívoca
de masculinidade ou se, apesar de tudo, haveria ainda assim
uma base que unificasse todos os homens.
Nesta pesquisa de mestrado eu pesquisei
o processo de produção das revistas, além
de analisar exemplares de cada uma das publicações.
Isso porque queria ter a possibilidade de investigar como,
no momento presente, sujeitos específicos constróem
mensagens a respeito da masculinidade e as colocam em circulação
nas revistas, que são por sua vez consumidas por uma
diversidade incrível de homens, o público leitor.
Este tipo de pesquisa combinada me
possibilitou uma série de dados valiosos, como por
exemplo perceber que cada repórter que trabalha nas
redações da revista tem acesso e incorpora ao
seu trabalho uma multiplicidade de referências de outras
revistas. Portanto o repórter, no seu processo normal
de trabalho, toma conhecimento de uma gama enorme de outras
publicações existentes no mercado, brasileiras
e estrangeiras, masculinas e femininas. Isto porque, num mercado
competitivo e em constante evolução. Não
somente o leitor é uma preocupação dos
repórteres, mas também os anunciantes (que mantêm
boa parte destas revistas) e as outras editoras, que competem
entre si por nichos cada vez mais especializados do mercado
leitor.
Ou seja, a pluralidade de propostas
editoriais disponíveis atualmente não é
somente uma consequência dos processos de crítica
social engendrados desde os anos 60, mas fazem parte também
de um desenvolvimento endógeno ao próprio mercado
de revistas, que busca explorar cada vez mais nichos especializados
de leitores afim de atrair anunciantes e montar vitrines especializadas
para produtos como cosméticos, roupas e viagens.
Este processo de pluralização
abriu espaço para todo o tipo de exploração
da imagem masculina. Atualmente, o nu masculino e a exploração
erótica da imagem do homem é cada vez mais lugar
comum. De novo as revistas gays foram pioneiras, colocando
o nu masculino nas páginas das suas revistas como elemento
editorial fundamental, muito antes de revistas voltadas às
mulheres. Depois do sucesso de revistas como a G Magazine,
que estampou várias personalidades masculinas brasileiras
nuas, uma explosão ocorreu neste mercado, com novas
revistas sendo criadas e novos mercados sendo testados.
Nas revistas heterossexuais, como a VIP, a imagem da mulher
ainda é o chamariz principal, a chamada garota da capa.
A revista não mostra muito a imagem do homem em fotos,
apesar de o corpo masculino ser presença constante
nas páginas da revista. As matérias da VIP sobre
moda, saúde e beleza cada vez mais levam ao universo
masculino práticas de controle da imagem antes tidas
como necessariamente femininas.
Nas paginas da VIP, apesar dos pudores
da revista em relação a mostrar o corpo do homem
de forma tão explícita como nas revistas gays,
cada vez mais o homem é bombardeado com informações
sobre seu corpo, com cuidar dele, como usar as roupas certas
nas ocasiões certas e como seguir as constantes mudanças
da moda. Cada vez mais portanto cuidar da aparência
se torna parte integrante de uma masculinidade bem sucedida.
Não ser gordo, estar na moda, usar perfumes e cremes
e até mesmo depilar se tornam práticas corriqueiras
e altamente heterossexuais, coisas que há pouco mais
de 30 anos atrás eram tidos como altamente efeminadas
e próprias de homossexuais e mulheres.
Ou seja, se na revista gay o tema do
corpo masculino, da beleza e do cuidado de si sempre esteve
presente, até como prerrogativa deste grupo específico
frente a uma masculinidade uniformemente machista, cada vez
mais as revistas voltadas a homens heterossexuais incorporam
este tipo de mudança nas suas páginas. Cuidar
de si, fazer exercícios, usar a roupa certa se tornam
cada vez mais necessários para o heterossexual, por
fazer parte do jogo da conquista das mulheres.
Ainda assim, apesar de tantos pontos
de contato, as revistas gays e heterossexuais buscam o tempo
todo se diferenciar. A VIP Exame tenta a todo custo colocar
como atividades másculas e próprias do macho
o cuidado do corpo e o uso de cremes. Ou seja, o leitor da
VIP pode e deve se preocupar com a aparência, mas sempre
permanecer macho, usar cremes "de macho" e perfumes
"de macho". Isso porque toda a preocupação,
segundo a revista, é tornar o homem mais atraente para
as mulheres.
Finalizando, podemos pensar que no
contexto atual do mercado de revistas, muitas mudanças
ocorreram e continuam ocorrendo. Novas possibilidades de vivenciar
o seu corpo e sua masculinidade se tornaram acessíveis
ao homem, e as críticas do feminismo e do movimento
gay tiveram enorme influência na forma como os homens
se percebem e consomem produtos como revistas masculinas.
Ao mesmo tempo, algumas divisões fundamentais continuam
funcionando, especialmente aquelas entre homem e mulher, e
entre homossexual e heterossexual. Os universos do homem e
da mulher continuam marcadamente separados nas páginas
das revistas, assim como os homens heterossexuais continuam
a marcar uma diferença fundamental entre eles e os
gays, por mais que os produtos, as roupas e as imagens que
apareçam nas revistas sejam cada vez mais parecidos.
(1) Ver Monteiro, Marko (2000). Tenham
Piedade dos Homens! Masculinidades em Mudança. Juiz
de Fora: FEME.
(2) Ver Monteiro, Marko (2000), op.
cit., pg. 64.